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Burt Reynolds e Hal Needham: uma amizade cinematográfica

Um astro de séries de faroeste dos anos sessenta tem como dublê e melhor amigo um ex-militar faz-tudo. Estaria eu falando de Rick Dalton e Cliff Booth, personagens de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt no último filme de Quentin Tarantino Era Uma Vez em Hollywood (Once Upon a Time In Hollywood, 2019)? Também, mas falaremos agora de dois personagens da vida real: o ator Burt Reynolds e o dublê e cineasta Hal Needham.

Ao criar os protagonistas fictícios de sua última empreitada cinematográfica, Tarantino resolveu recriar em parte uma das amizades mais conhecidas dos bastidores cinematográficos. De um lado, Reynolds começou a fazer sucesso primeiro na tela pequena, em seriados de caubói como Gunsmoke (1962-65), O Falcão (Hawk, 1966) e Dan August (1970-71).

No ano seguinte, Reynolds deslanchou para a fama no cinema com Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972), suspense dirigido por John Boorman sobre quatro amigos da cidade que iam para o campo e sofriam horrores na mão de criminosos interioranos e inúmeras intempéries naturais. Sobre o filme, disse em entrevista: "Esperei por 15 anos para fazer um filme realmente bom. Eu fiz muita coisa ruim. Nunca fui capaz de recusar nada. A maior maldição em Hollywood é ser um desconhecido conhecido".

Sua performance de entusiasmada a sombria como Lewis Medlock garantiu o passaporte para a fama: o filme de perseguição de carros Sob o Signo da Vingança (White Lightning, 1973) e a comédia esportiva Golpe Baixo (The Longest Yard, 1974) o fizeram entrar na lista de estrelas mais populares das grandes bilheterias, e lá ficou até 1984. Mas o pico da sua carreira se daria por conta de um velho amigo: Hal Needham.

Hal serviu como paraquedista durante a Guerra da Coreia e, após isso, trabalhou como arborista e modelo fotográfico para os cigarros Viceroy. Sua primeira oportunidade no ramo do cinema foi como dublê de Richard Boone no seriado Paladino do Oeste (Have Gun — Will Travel, 1957-63). Treinado por Chuck Roberson, dublê de John Wayne, Hal se tornou um destaque no ramo e no gênero, tendo trabalhado em A Conquista do Oeste (How the West Was Won, 1962), de John Ford, e Pequeno Grande Homem (Little Big Man, 1970), de Arthur Penn. Sua lista de feitos é incrível: ele é quem pula de uma sela de cavalo para outra no filme de Dustin Hoffman. Porém, feitos dignos de Velozes e Furiosos antes da invenção do digital cobraram o preço de incríveis 56 ossos quebrados ao longo da carreira.

Entre os atores para quem mais fazia trabalhos estavam Clint Walker (famoso por Cheyenne) e, é claro, Burt Reynolds, que conheceu no set de Riverboat (1959) e com quem desenvolveu uma amizade profunda: Needham morou por 12 anos na casa de hóspedes do astro de Hollywood. Sobre o início da amizade, Reynolds disse: "Eu era tão convencido. Eu não queria um dublê. Eu disse a ele, "Olha, eu não quero mesnoprezar seu talento. Tenho certeza de que você é muito bom, mas eu faço minhas próprias cenas. Ele sorriu e disse: 'Se você soubesse quantos atores eu já levei para o hospital que disseram isso a mim. Mas eu quero ver você fazer isso.' Eu disse 'OK, e fiz a cena. Ele disse que foi muito bom e perguntou o que mais eu poderia fazer. Eu respondi: 'Tudo que você me ensinar'. E ele disse 'Tudo bem, venha até a minha casa'."

À época, Needham ambicionava mais, trabalhando como diretor de dublês e servindo como diretor de segunda unidade, além de trabalhar desenvolvendo equipamentos inovadores para o ramo onde se destacou. Ele era exigente: em suas memórias, reprovava manobras fanasios e cobrava realismo: "A gente fazia de verdade. Se eu olhasse na tela e falasse 'Isso é besteira. Isso não funciona. Isso é impossível', eu perdia todo o interesse no filme". Seu sucesso era tanto que em 1977 a empresa Gabriel Toys lançou "Hal Needham Western Movie Stunt Set", um cenário de estúdio de faroeste (com refletores e câmera de miniatura) onde um Hal de brinquedo podia ser impulsionado por cima de balcões, mesas e janelas. O set em miniatura hoje é item de colecionador!

Mas Hal e Reynolds iriam conquistar mais: pelos meados da década de 1970, o dublê escreveu um roteiro com o título Smokey and The Bandit (1977), sobre Bo "Bandit", um lendário motorista contratado por ricaços para contrabandear a cerveja Coors de Texakarna para Atlanta, com a ajuda de um cômico caminhoneiro que não desgrudava do cachorro de estimação. A inspiração veio quando estava trabalhando como dublê em Gator, O Implacável (Gator, 1976) na Georgia e percebeu que a faxineira do hotel constantemente roubava cervejas de tal marca da geladeira. Ele contou para a revista Time que a a cerveja não existia em certas partes dos EUA por não ser pausterizada e precisar ser constantemente refrigerada, portanto não poderia ser legalmente vendida em 11 estados. Ele teve um estalo: "Contrabandear Coors seria uma boa trama para um filme!"

Needham tinha planos modestos para a produção: US$ 1 milhão de orçamento e o cantor country Jerry Reed como protagonista. Porém, ao ler o roteiro, Reynolds ficou tão empolgado (apesar de boatos indicarem que teria dito que "eram os piores diálogos que já havia lido") que resolveu estrelar e bancar a produção, que ficaria conhecida no Brasil como Agarra-me se Puderes. Ele seria Bandit, e para Reed ficou o papel de braço direito do protagonista, Cledus "Snowman".

A presença de Burt Reynolds alterou a produção inteira: foi o astro que pressionou o estúdio para que contratasse Sally Field, após os executivos resistirem alegando que a atriz não era "atraente o suficiente". A atriz, que venceria inúmeros prêmios por projetos como Norma Rae (1979), Ausência de Malícia (Absence of Malice, 1981) e Um Lugar no Coração (Places in the Heart, 1984) aceitou o conselho do agente de que sua carreira precisava de um impulso em um projeto "Classe A".

Sobre o projeto, Sally disse: "Burt Reynolds, que era um grande astro à época, me ligou e disse se eu consideraria fazer isso, e eu fiquei completamente pasma por ele ter me chamado. Como eu não era uma pessoa que veio de um teatro de Nova York, e eu vim dessa origem um pouco estranha e pouco comum, eu não ficava parada e falando "Hum, parece não ter um roteiro aqui", disse a atriz, que começou na TV em projetos como Gidget (1965-66) e A Noviça Voadora (The Flying Nun, 1967-70). "Então eu dei um voto de confiança. Pensei: "Bem, se eu fizer essa personagem que Burt pensa ser atraente, talvez o mundo pense que eu sou atraente e mais alguém me contrate. Então eu fiz. E foi uma jornada muito divertida, certamente uma boa experiência. E teve também todos os cacos. Foi quase tudo improvisado". Reynolds e Field namoraram por quatro anos.

Improviso era a ordem do dia: a Universal aumentou o orçamento para US$ 5,3 milhões, mas, após dois dias de produção, enviou um executivo que acabou reduzindo o orçamento para US$ 4 milhões; como Burt já ganharia o salário de US$ 1 milhão, Needham tinha cerca de US$ 3 milhões para dirigir sua estreia. Isso obrigou Needham a revisar todo o seu plano de filmagem. Depois de muitas manobras malucas, a maioria dos carros usados pelo protagonistas (cedidos pelas marcas de carro Pontiac e Boneviles) já não davam partida e a viatura policial tinha de ser empurrada em cena.

A presença de Reynolds e o espírito do improviso também estão na gênese do principal antagonista: o xerife Buford T. Justice, um tipo hilário saído da vida real que Reynolds disse ser um conhecido de seu pai (um ex-chefe de polícia da Flórida), que constantemetne resmungava a contração "sumbitch" (ou "fidaputa", em bom português). O estúdio queria o astro Richard Boone para o papel principal, mas Reynolds queria alguém "mais louco, perigoso e engraçado", e então sugeriu Jackie Gleason. "Eu encontrei Jackie uma vez na Flórida, onde ele vivia, e ele fez uma imitação de xerife sulista que me fez rachar de rir".

O ator, conhecido pelo jogador de sinuca Minnesota Fats em Desafio à Corrupção (The Hustler, 1961), com Paul Neman e pelo motorista de ônibus trambiqueiro Ralph Kramden na famosa sitcom The Honeymooners (1955-56), mostrou entusiamo pelo projeto: foi ele que sugeriu a criação do seu filho, Junior Justice, dizendo "precisar de alguém para interagir". A hilária cena em que um papel higiênico fica preso na calça do dedicado policial enquanto sai de um bar também foi ideia sua.

Jerry Reed, como o bonachão Cledus "Snowman", teve um problema: além de atuar, também havia prometido escrever a trilha sonora para o filme. Mas, lá pelo final das filmagens, tal música ainda não existia. Cobrado pelo diretor, disse que traria algo na manhã seguinte. Dito e feito: sem dormir, escreveu "Eastbond & Down" e mostrou para o cineasta, que a princípio não reagiu. Reed disse: "Bem, se você não gostou, eu posso mudar". E Needham estourou de entusiasmo: "Se você mudar uma nota, eu te mato!". A canção ficou 16 semanas no número #2 da parada country da Billboard.

O vice também foi o lugar da película: em cima do orçamento de US$ 4,3 milhões, o filme lucrou 300 milhões de dólares nas bilheterias (o valor investido multiplicado quase 70 vezes!), ficando atrás apenas de um tal de Star Wars - Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars: Episode IV - A New Hope, 1977). Reynolds iniciou um reinado que entraria nos anos 80 com filmes de sucesso, sendo indicado duas vezes a melhor ator no Globo de Ouro e se tornando um símbolo sexual do período.

Vale destacar também que Agarra-me Se Puderes era um dos filmes preferidos do mestre inglês Alfred Hitchcock, falecido em 1980. Sua filha, Patricia Hitchcock, introduziu o filme destacando o gosto popular do pai, diretor de clássicos como Psicose (Psycho, 1960) e Janela Indiscreta (Rear Window, 1954): "Ele fazia filmes para a audiência e para entretenimento, não para críticos ou autossatisfação". E é fato que Agarra-me Se Puderes tem toda a ação e o humor que o cineasta tanto se preocupava em colocar em seus filmes (hilariamente, Hitchock também era fã de Benji - O Filme [1974], sobre um adorável cãozinho vira-lata tentando resgatar as crianças da família que o adotou). 

A dupla Needham e Reynolds voltaria a trabalhar junta nos sucessos Hooper - 0 Homem das Mil Façanhas (Hooper, 1978, também com Sally Field), a sequência Desta Vez Te Agarro (Smokey and the Bandit II, 1980), Quem Não Corre, Voa (The Cannonball Run, 1981) e Um Rally Muito Louco (Cannonball Run II, 1984), tornando-os também famosos por filmes de corrida. Reynolds tinha orgulho de estrelar esses filmes "feitos no Sul, sobre o Sul e para o Sul... Memphis sozinha já pagava o custo do negativo".

O Imbatível (Stroker Ace, 1983), uma das últimas parcerias da dupla, fracassou nas bilheterias, com Reynolds aceitando estrelar o filme por lealdade a Hal e recusando o papel do astronauta Garrett no drama Laços de Ternura (Terms of Endearment, 1983), pelo qual Jack Nicholson ganharia o Oscar de ator coadjuvante. Reynolds lamentaria depois que sua carreira tomou um baque e perdeu os fãs nesse momento: "Foi quando os perdi", também fazendo piada que "era o tipo de filme que exibem em prisões e aviões, porque ninguém pode ir embora".

O ator só voltaria à proeminência como o produtor de pornografia Jack Horner em Boogie Nights - Prazer Sem Limites (Boogie Nights, 1997), segundo filme de Paul Thomas Anderson, de Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007) e Trama Fantasma (Phantom Thread, 2017). Já Needham continuaria trabalhando até meados dos anos 90, tendo como último crédito o telefilme criminal Reféns no Hotel (Hard Time: Hostage Hotel, 1999), também sua última parceria com o amigo Reynolds.

Needham faleceu em 2013, deixando o amigo pensativo: "Quando ele morreu, eu pensei: o que em nome de Deus poderia tê-lo matado?". Reynolds, falecido em 2018, havia sido escalado para Tarantino para viver George Spahn, o idoso dono do rancho homônimo habitado pelo culto religioso conhecido como Família Manson, porém, enfartou antes mesmo de gravar sua primeira cena em Era Uma Vez... em Hollywood. O papel acabou indo para Bruce Dern. A clássica amizade é retratada com certo carinho no filme do diretor de Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009), e já influenciou mais de um caso de dublê virando diretor, como o caso de Chad Stalheski, dublê de Keanu Reeves na trilogia Matrix (1999- 2003), dirigindo o astro na trilogia John Wick (2014, 2017, 2019).

Mesmo não sabendo o que Reynolds pensaria da amizade de Dalton e Booth, as declarações de Reynolds em seu livro de memórias mostram o carinho dessa amizade frútifera: "Eu realmente fiquei feliz que Burt e Hal não era apenas Burt e não era apenas Hal. Fui feliz por termos sido nós dois juntos. Eu achava que ele era  e ele realmente foi o melhor dublê que já viveu [...] Eu sempre disse a ele que se ele fosse mulher, nós teríamos tido um grande casamento. Ele era um cara incrível. Do tipo que só aparece uma vez na vida".

Comentários (1)

CitizenKadu | quarta-feira, 08 de Abril de 2020 - 19:46

Muito massa este texto. Na dublagem ele era o Bandido. Reynolds era um cara engraçado, recomendo ver as entrevistas pro Dick Cavett, mostra uma outra pessoa até mesmo antes de "Deliverance".

CitizenKadu | quarta-feira, 08 de Abril de 2020 - 19:47

"The Longest Yard" é um clássico subestimado do Aldrich.

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