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Filmes de 2000

Quando todos achavam que havíamos desistido de nossa série que revisita a história do cinema ao longo dos anos, eis que chega a surpresa: em pleno Carnaval, o Cineplayers traz mais uma edição para vocês.

Se é novo no site ou não lembra como funciona o especial, explicamos novamente: cada editor pode escolher apenas um filme por ano, tentando abranger o máximo possível todos os gostos de determinado ano.

Isso é mais justo do que uma lista onde todos fazem um top por ano, onde os títulos mais populares acabam ganhando destaque pela somatória de citações ao invés de, necessariamente, o melhor filme em determinado gosto ser citado. Claro que, assim, alguns acabam ficando de fora, mas nada é perfeito, né? É o seu papel nos ajudar a preencher a lista com as demais ausências, ok? :)

Não deixe também de visitar as edições anteriores:


Sem mais delongas, vamos relembrar o ano 2000!



Alta Fidelidade, de Stephen Frears

Em um nicho formulaico e batido que é o das comédias românticas, Alta Fidelidade consegue se destacar justamente por quebrar esse paradigma. A atuação incontestável de John Cusack, as referências pop e a trilha sonora também contribuem para o status cult do longa. O roteiro afiado e inteligente, adaptado do romance de Nick Hornby, conta a história de Rob, um vendedor de discos frustrado que acaba de levar um fora da namorada. Em constante conversa com a câmera, ele relembra todas as suas desilusões amorosas ao mesmo tempo em que destila todo seu conhecimento e paixão pela música. O protagonista é tão humano que consegue nos cativar e causar raiva ao mesmo tempo, o que também foge ao clichê de outros filmes do gênero, com personagens insuportavelmente rasos e quase robóticos. Destaque para as participações de Jack Black e Todd Louiso nas figuras dos funcionários da loja de Rob, que dão um maior alívio cômico em diálogos genialmente nonsense e engraçados, mas que são na verdade muito reais para quem conhece e frequenta esse meio dos aficionados por música. Stephen Frears conseguiu criar não só um filme agradável e totalmente divertido, mas uma verdadeira referência em obras sobre relacionamentos, com uma abordagem realista e madura que cria total identificação com o espectador.

- Bruno Marise



Amnésia, de Christopher Nolan

Se hoje o diretor Christopher Nolan é um dos diretores mais polêmicos (pelo menos aqui no Cineplayers, uns o amam e outros o odeiam), isso se deve em boa parte ao suspense Amnésia. Quando lançado, ele trouxe uma montagem totalmente original, contando a história de trás para a frente. Uma ideia que pode parecer simples e hoje em dia até mesmo óbvia, mas que chamou a atenção dos críticos lá no ano 2000. Leonardo (Guy Pearce), por causa de um problema de memória, não se lembra de fatos recentes, e nessa condição parte em busca da solução de um grande mistério pessoal. Por causa da montagem (onde não sabemos o que aconteceu antes do que está se passando em cena), temos a sensação de estarmos nas mesmas condições psicológicas de Leonard, o que é genial.

- Josiane Ka



Amor à Flor da Pele, de Kar Wai Wong

Nessa obra afetiva, Kar Wai Wong investe em nuances e freia o movimento. Nessas nuances reside a marca de um realizador centrado no trato do desenvolvimento de uma relação num tempo espaçado, fotografado a partir de uma câmera que desloca a imagem morosamente, num ritmo consoante a de seus atores. Tudo é rítmico e transitório, da trilha às cores utilizadas nesse drama urbano e melancólico. Aqui é a paixão que está à flor da pele, esvaindo pelos poros, numa atmosfera atraente e por muitas vezes sensorial. É um filme fino, singular às perspectivas de ação narrativa, sendo sua ação a emoção e tudo que lhe envolve, um conjunto de alegorias que adornam a solidão a dois filmada. E o que se vê, a partir da tônica das interpretações e de sua câmera contemplativa, é a sinuosidade dos sentimentos, da coloração precisa que dialoga com o espaço-tempo e com o envolvimento cada vez mais íntimo entre seus dois principais personagens; é a evocação da ternura num entretom de paixão efervescente numa obra apoteótica da entrega propulsora ao intrínseco desejo.

- Marcelo Leme



Amores Brutos, de Alejandro González Iñárritu

Enquanto alguns ainda teimam em ver defeitos nos filmes do cineasta mexicano Alejandro G. Iñarritu, eu os continuo admirando cada vez mais. Poucos diretores atualmente na ativa podem exibir uma filmografia tão sólida e coerente, tanto na temática (quase sempre relacionada à morte), quanto na forma (filmagem seca e crua, histórias multifacetadas). Minha admiração por Iñarritu vem logo da sua estreia, em 2000, quando Amores Brutos (talvez seu melhor filme até hoje) foi lançado nos cinemas brasileiros. Por 2 horas e meia, acompanhamos a vida de três personagens completamente diferentes entre si: Octávio, que vive de rinha de cachorros (que serve de título/metáfora da obra); El Chivo, um ex-terrorista em busca de sua filha; e Valéria, uma modelo fotográfica no auge do sucesso. O destino que estava reservado a cada um deles é brutalmente alterado por um acidente automobilístico (espetacularmente bem filmado), o que abre espaço para um dos retratos mais crus sobre a culpa, a perda e o luto que já vi na tela (talvez reproduzido na mesma intensidade em 21 Gramas, do mesmo Iñarritu). Goste-se ou não do estilo do cineasta, há se reconhecer a força da obra e uma mente pensante por trás daquilo tudo. Amores Brutos, do qual não dá pra se desconectar tão rapidamente assim, é a prova disso.

- Régis Trigo



As Harmonias de Werckmeister, de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

Werckmeister Harmonies é composto por sequências que traduzem essencialmente posições políticas e a autenticação da humanidade em um vilarejo soturno típico dos filmes de Béla Tarr. Entre espaço e tempo, antes mesmo da narrativa, o mal estar composto em cerca de 39 planos-sequência se desloca ao espectador com o reforço de barbáries que  se justificam simplesmente como convivência humana. O caminho que a rotina, dominada pela moral como eixo de questões existenciais – outro pilar da filmografia de Tarr, junto ao rigoroso inverno e o desenho que a câmera faz para explorar a fundo o espaço que é dela – se afirma como a vida, concreta, injusta e vazia. Junto a poesia que plástica e o ritmo regem, Tarr aponta para um tipo de harmonia que não se contempla; desta forma, o filme se delineia como pura contaminação de um estado de espírito que tem como diagnóstico seco a figura cruel de  homens perdidos ante a imensa força do que os cerca.

- Pedro Tavares



Batalha Real, de Kinji Fukasaku

Batalha Real vai muito além de um slasher tradicional. Ele tem um contexto político-social que o torna mais relevante do que a superfície mostra. E moral também. Afinal, matar crianças (parecem adolescentes, mas na realidade não passam de crianças) na tela não é para qualquer cineasta. Aqui, elas são marionetes de um sistema falido, que deve apelar para medidas extremas de controle populacional para que seja mantida à força a ordem em um mundo antes praticamente anárquico. Já foi copiado até o talo por Hollywood (na realidade, o livro que deu origem ao filme Jogos Vorazes) e ajudou a incitar um conjunto de obras semelhantes – o que alguns chamam de “cinema jovem-adulto”, uma bobagem só! Além disso tudo, Batalha Real é simplesmente um grande suspense. Cheio de tensão e que não poupa o espectador em sua linguagem visceral, a famigerada – e deliciosa! – violência gratuita. Este filme – e uma sequência bem menos conhecida – foi a carta de despedida do cineasta Fukasaku, que viria a morrer poucos anos depois. Sua obra vem sobrevivendo bem à passagem do tempo, não só pelas cópias que inspirou, mas por ainda não ter sido superada.

- Alexandre Koball



Billy Elliot, de Stephen Daldry

Quando o ator Jamie Bell, que interpreta Billy no filme Billy Elliot, foi questionado sobre como ele se sentia ao ver seu trabalho de estreia sendo adaptado para a Broadway, Bell respondeu que o filme dirigido por Stephen Daldry era maior do que ele, e que apesar de ter trazido o personagem à vida, o mundo de Billy Elliot era agora uma história do mundo, que merecia ser contada diversas vezes para todas as crianças do mundo que possuem um sonho; o que não deixa de ser verdade. Contando a história de um garoto no interior da Inglaterra, Billy Elliot passa a ter interesse por balé, onde sofre preconceito por ser "coisa de menina" e causar problemas na escola num tempo onde a família sofre com a perda da mãe e a greve dos mineradores. O filme foi um tremendo sucesso nos anos 2000, ganhando algumas indicações ao Oscar e um prêmio BAFTA de melhor ator para Jamie Bell. Aborda diversas questões importantes como sexualidade, preconceito, bullying, diferença de classes sociais, preferências políticas e ainda brinca com elementos musicais. Além de possuir uma direção extremamente interessante, a trilha sonora também ganhou destaque por possuir diversas faixas do cantor de rock T. Rex e The Clash. Pessoalmente, considero Billy Elliot um dos meus filmes favoritos e obrigatório para ser visto quando pré-adolescente.

- Guilherme Spada



Brother - A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles, de Takeshi Kitano

No tocante das artes narrativas, existem poucas coisas que podem representar tão bem o fascínio pelo lado mais íntimo do ser humano quanto os estudos sobre o silêncio – e tudo o que esse objeto pode representar. Como foi implícito em um artigo 7+ sobre o tema: o personagem está em completo túmulo vocal, mas a câmera, em seu poder de mais puro voyeurismo, faz questão de nos revelar que por trás daquela morte existe algo muito perturbador que clama por expurgação. Brother – A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles se trata de um dos tantos exemplares do cineasta Takeshi Kitano a semear a curiosidade em torno de personagens nebulosos, esses normalmente afetados mentalmente de maneira tão forte (e desconhecida) que terminam por estourar de maneira dupla no mundo real – a violência crua dividindo lugar com a sensibilidade emocional humana. Kitano foi um dos poucos cineastas nos últimos vinte anos que conseguiram imprimir de maneira notável diversos recortes sobre um mesmo objeto sem cair no marasmo da autocópia, sendo cada obra um evidente evento novo. Brother tem lugar cativo nas lembranças quando o assunto é amizade no cinema, também é importante dizer; está tudo lá mergulhado em sangue, poder e muito, mas muito amor – este último sendo transferido de forma direta pela própria relação do criador para com o seu filme. Sensível é pouco.

- Victor Ramos



Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan

A questão do mito parece atravessar a carreira de Shyamalan. O mito que idealizamos, que acreditamos, que aplicamos em nosso dia a dia – sempre esmiuçando o fator humano e as áreas de cinza. Aqui, a temática do super-herói é abordada como um filme de suspense a conta-gotas, onde protagonista e antagonista vão se formando e revelando-se ao longo da história. É notável, nesse filme que fala sobre uma mitologia contemporânea e popular (a dos quadrinhos), a questão do reenquadro – pessoas, construções e objetos recortam seus personagens a quase todo momento. Corredores, escadas, batentes de porta, quartos apertados, multidões, colunas... Seus personagens são, a todo momento, isolados e destacados em suas jornadas individuais, progressivamente alienígenas da vida cotidiana. Revisitando o universo com menos cores, mais sombras e temáticas como responsabilidade, obsessão e senso do dever, Shyamalan conta novamente a história de herói e vilão, tornando eles mais desajustados e desconfortavelmente próximos do que nunca.

- Bernardo D.I. Brum



Dançando no Escuro, de Lars von Trier

Musicais são conhecidos como filmes alegres, positivos, onde "nunca algo de ruim acontece" - mas não com Lars von Trier, o rei do pessimismo. Utilizando muitos de seus artifícios do Dogma 95 - o modo como o som é tratado aqui beira o genial, percebam o silêncio que tortura -, ele cria um melancólico musical sobre uma mulher com problema de visão que é acusada injustamente de roubo e sofrerá pesadas consequências por isso. Seus devaneios oníricos com os sons ao redor são as fugas daquele mundo deplorável e mudo, onde fica difícil encontrar o que há de bom na vida de Selma, interpretada por uma Björk convincente e de sorriso amarelo. O público acaba se tornando cúmplice de uma escolha difícil, inerte atrás das lentes de Trier, que parece fazer questão de nos torturar com suas câmeras inquietas e closes enclausuradores até um final previsível, mas não menos doloroso. Selma ama musicais, mas odeia seus finais; não à toa, pois aquela imagem que encerra o longa pode assombrar memórias por anos e mais anos – havia 13 que não via o filme, mas nunca me esqueci dela. Isso só os grandes conseguem.

- Rodrigo Cunha



Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento, de Steven Soderbergh

Se anteriormente Soderbergh ainda não se tinha firmado ou como cineasta sério ou como aventureiro transeunte de gêneros, estilos e públicos diferentes, com Erin Brockovich ele finalmente se afirmou como um grande oportunista das mais variadas esferas em Hollywood, dos grandes blockbusters de orçamentos milionários aos filmes-denúncia que tanto adora. Foi com esse filme, laçado em estratégia junto de Traffic, que o cineasta entrou de vez no mapa e consagrou não apenas um estilo, mas os vários focos de cinema que, desengonçadamente, formam em suas mãos um material homogêneo e, vá lá, autoral. Mas não nos enganemos ao ver Erin Brockovich como um “filme de Soderbergh” – está claro que é um “filme de Julia Roberts” e para Julia Roberts, essa que talvez seja a última grande estrela glamourizada pela indústria hollywoodiana. A história real, o conteúdo-denúncia, tudo isso é blábláblá quando vemos que não passam de escada para que a atriz-fetiche brilhe em tempo integral, dentro de suas caras e bocas, sorriso luminoso e gesticulações exageradas. É o autor glorificando sua musa inspiradora, abrindo-lhe brechas para ser a profissional que sempre quis ser, sendo levada a sério como sempre quis ser, mas que poucas vezes conseguiu (poucas vezes que foram o suficiente para eternizá-la, sob as lentes de mestres como Mike Nichols, Woody Allen e Robert Altman, grandes diretores de atores). Resultado? Ambos saíram ostentando seus tão ansiados Oscar na noite da premiação, que podem não valer muita coisa depois de tantos anos, mas que foram definitivos para consagrá-los como a mais charmosa dupla de picaretas talentosos (e subaproveitados) do cinema.

- Heitor Romero



Gladiador, de Ridley Scott

A trajetória de Maximus (Russel Crowe) em Gladiador é uma Odisseia particular, onde as criaturas fantásticas são substituídas pela dor irreparável da perda da família e os feitos heroicos dão licença para uma narrativa de superação e vingança. O filme possui grandes defeitos, principalmente porque é produzido através das lentes despersonalizantes de uma Hollywood ainda mais em crise identitária do que a de hoje. Por outro lado, a história é atraente, estruturada verdadeiramente como um épico: Maximus e Commodus (Joaquim Phoenix) são personagens particulares cujas facetas revelam, simbolicamente, a Roma dramatúrgica de Ridley Scott: idealista, evocativa e moralmente edificante, ao mesmo tempo em que é corrupta, doente e inescrupulosa. O confronto entre esses dois arquétipos talvez marque definitivamente a derrocada de um tipo de heroísmo íntegro na história do cinema. O falecimento de Maximus enquanto herói sela a derrocada da antiga Roma de Scott, mas também do herói moralmente convicto e retilíneo do imaginário americano, permitindo a entrada de um outro tipo de herói, o anti, marcado por vícios, traumas e desvios de caráter.

- Guilherme Bakunin



Nove Rainhas, de Fabián Bielinsky

Com apenas dois longas na carreira antes da sua morte precoce, o realizador argentino Fabián Bielisnky sabia como passar a perna no espectador. Nove Rainhas mostra uma Buenos Aires ostensivamente urbana. Um mar de oportunidades para quem for esperto o suficiente para aproveitar. Seguindo o subgênero de 'filmes sobre golpistas' - que guarda clássicos como Golpe de Mestre (The Sting, 1973) e Ladrão Que Rouba Ladrão ($, 1971) - o filme brinca com nosso espírito investigativo, algo que diretores como Hitchcock sabiam explorar muito bem, para depois quebrar as expectativas e fazer com que todos nos sintamos alegremente feitos de besta. A dupla de pilantras formada por Ricardo Darín e Gastón Pauls vai aplicando pequenos estelionatos até darem a sorte grande e se envolverem na venda de selos falsos, "Nove Rainhas", para um rico colecionador. Uma série de situações tensas faz com que as personagens aos poucos vão revelando o que há de mais frágil em suas personalidades. O roteiro de Bielinsky é cheio de brinquedos escondidos, que vão desde quem de fato está enganando quem na trama à inesquecível música tema. Nove Rainhas é um filme divertido, inteligente e marcante. Uma pérola do cinema argentino dos últimos vinte anos.

- Fillipe Vilar



O Auto da Compadecida, de Guel Arraes

A adaptação de Guel Arraes para a peça teatral de Ariano Suassuna se transformou em um grande sucesso de público e crítica. Dosando na medida certa a comédia e o drama, O Auto da Compadecida usa e abusa de elementos genuinamente brasileiros, seja através de uma reconstituição fiel e original da realidade geofísica do sertão nordestino brasileiro, seja através da valorização da cultura popular local e de seus elementos folclóricos, históricos e de religiosidade. Merece destaque a fluidez do texto, marcado por diálogos ágeis, cômicos e reflexivos. O elenco, como um todo, é bastante entrosado, sendo a imensa maioria das personagens cativantes ao público. E por falar em personagens, não há como não se encantar com as desventuras da dupla protagonista (João Griló e Xicó, brilhantemente interpretados por Matheus Nachtergaele e Selton Mello, respectivamente), uma das mais marcantes parcerias da história do cinema nacional. Meu ponto preferido é o julgamento final; ali, vemos toda a inventividade do texto de Suassuna posta em prática através dos argumentos de cada personagem na tentativa de convencer o Cristo e o Diabo acerca da sentença definitiva, culminando na perspicaz apelação de João Grilo ao clamar pela intervenção da Compadecida (daí em diante, Fernanda Montenegro aparece e rouba pra si toda a cena, na tentativa de demonstrar que a linha entre o moral e o imoral talvez seja mais tênue do que imaginamos). Enfim... O Auto da Compadecida foi O Melhor Filme de 1999? "Não sei, só sei que foi (mais ou menos) assim!". Sem dúvida, uma joia do Cinema Nacional que merece ser vista e revista sempre que possível.

- Léo Félix



O Tigre e o Dragão, de Ang Lee

Devem existir alguns filmes melhores sobre o universo 'wuxia', mas Ang Lee foi o cineasta que me apresentou o gênero e, desde então, nenhum outro filme nesses 15 anos se sobrepôs. Muito jovem que eu era, fui tomado pelo universo poético e onírico muito particular do gênero e desde então voltei a ele inúmeras vezes. Com uma montagem virtuosa impedindo que tantos elementos sufoquem uns aos outros, o roteiro brilha, mas também há espaço para a acrobática fotografia e a imensa gama de sentimentos empregada em cada cena, sejam elas reflexivas ou movimentadas. Com um elenco em perfeita sintonia e um toque feminista precioso, Lee nos apura olhos e ouvidos com uma obra que realça os sentidos.

- Francisco Carbone



Objeto Misterioso Ao Meio-Dia, de Apichatpong Weerasethakul

Após quase uma década de curtas-metragens mais ou menos anuais, Apichatpong “Joe” Weerasethakul começou a estabelecer seu nome no mundo com Objeto Misterioso ao Meio-Dia. Pode-se argumentar que o longa tem algo de embrionário, mas grande parte da estética do cineasta está plenamente realizada neste efervescente choque entre documentário e ficção. A simples, até humilde, proposta de “Joe” é viajar por vilarejos de sua Tailândia natal e pedir aos locais que contem à câmera qualquer tipo de história, real ou imaginária. A inspiração foi o método criativo surrealista chamado “cadavre exquis” (cadáver esquisito/requintado), no qual diversas pessoas desenham partes de um corpo ou escrevem partes de uma história e os resultados são reunidos. Nesse processo, bem mais do que montar um conto, o filme expõe muito dos narradores, seja a empolgação de um grupo de meninos ou as crenças de adultos e idosos. Mais ainda, espectadores frequentes de Weerasethakul podem identificar inúmeras marcas do diretor, desde o peculiar misticismo de suas narrativas até seu olhar atento à reveladora rotina dos indivíduos que registra. Tudo convergindo para um cinema cintilando de vida, anunciando e fazendo jus à grande obra do tailandês.

- Pedro Costa De Biasi



Quase Famosos, de Cameron Crowe

Cameron Crowe volta às suas origens que o consagraram durante o fim da década de 1980 e início da década de 1990 e, aproveitando-se de suas experiências pessoais, acaba por criar um filme que respira Rock’n roll, com tudo de melhor e de pior que esse estilo de vida pode oferecer. É interessante como o diretor insere a inocência e inexperiência do jovem William Miller (Patrick Fugit, excelente) em um universo tão intenso, sujo, superficial e libertador, tendo a capacidade de nos fazer acreditar que o protagonista realmente nasceu para estar naquela turnê, com um verdadeiro deslumbre ao estar no mesmo local que seus ídolos, com um turbilhão de coisas acontecendo ao seu redor enquanto seu coração vai descobrindo o verdadeiro significado da palavra amor. É lindo ver o adolescente se libertando da mãe excessivamente afetuosa - Frances McDormand roubando a cena, se apaixonando pela enigmática Penny Lane (Kate Hudson, maravilhosa) ou dando um pouco de consciência ao inconsequente Russell Hammond (Billy Crudup, ótimo). E apesar de tantos percalços, é impossível não ver todos unidos e felizes cantando a belíssima Tiny Dancer, de Elton John, e ter uma imensa vontade de cair na estrada. Quase Famosos é uma ode ao espírito aventureiro que existe dentro de cada um de nós e ao que de melhor o rock’n roll pode nos proporcionar.

- Francisco Bandeira



Snatch - Porcos e Diamantes, de Guy Ritchie

Muito já foi dito sobre a influência de Quentin Tarantino no cinema norte-americano dos anos noventa. O curioso, porém, é que um dos grandes discípulos do atendente-de-locadora-que-virou-cineasta-premiado não veio do território ianque, mas da terra da Rainha. Após chamar a atenção com Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, Guy Ritchie confirmou seu talento e suas ideias naquele que ainda é o seu melhor filme: Snatch – Porcos e Diamantes. Com uma trama mais bem construída e mais seguro de seu estilo, Ritchie apresenta uma galeria de personagens bizarramente divertidos – do uzbeque que desvia de balas ao cigano incompreensível de Brad Pitt –, uma montagem incrivelmente dinâmica, repleta de raccords inspirados, diálogos pontuados por falas memoráveis e um trabalho de câmera enérgico, que brinca com praticamente todos os recursos disponíveis, para realizar um dos filmes mais bacanas do início de século. É excessivo, é violento, é totalmente sem conteúdo, mas é puramente cinético, irreverente e espetacularmente gostoso de se assistir, do primeiro ao último plano. Dizer que o aprendiz superou o mestre talvez seja exagero. Mas, ao menos aqui, Ritchie chegou perto.

- Silvio Pilau



Teenagers - As Apimentadas, de Peyton Reed

Teenagers – As Apimentadas (Bring it On, 2000) é parte de um grupo de filmes adolescentes revisionistas que pegaram carona no sucesso de As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless, 1995). Mas seria justo dizer que um dos maiores sucessos recentes do gênero, A Escolha Perfeita (Pitch Perfect, 2012), pega emprestado de Teenagers o reconhecimento do charme na estupidez e amoralidade dos personagens, a empolgação constante da narrativa e uma construção de cena musical com uma esperteza que Hollywood não entregava desde os anos 1960. Peyton Reed dirige o filme como se seus personagens estivessem em uma marcha desorganizada e incontrolável, como se tudo acontecesse ao mesmo tempo, ininterruptamente. É fantástico. E não acho que haveria outro modo de filmar o roteiro alegre e quase tão de gírias que poderia se tornar incompreensível de Jessica Bendiger.  Ali, quase perdida no meio da intensidade e do absurdo, está a intenção feminista do filme, com as palavras de ordem básica desse cinema adolescente revisionista: girl power, sororidade e aceitação de si mesma.

- Cesar Castanha



Todo Mundo em Pânico, de Keenen Ivory Wayans

O que o “found footage” é hoje para o terror, Todo Mundo em Pânico foi para a comédia escrachada. Aproveitando o imediato sucesso de A Bruxa de Blair, os irmãos Wayans entraram na vibe de Jerry Zucker em Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu! e injetaram uma metalinguagem pra lá de “quero tirar sarro de tudo e de todos”, sem levar em conta pudores ou qualquer outro tipo de conservadorismo. Absurdo, grosseiro e escatológico, Todo Mundo em Pânico é possivelmente um dos grandes espetáculos de humor nonsense já concebidos, algo digno de deixar os irmãos de Farrely com orgulho e inveja. As piadas jamais perdem o timing, especialmente por estarem constantemente dentro do contexto da metalinguagem. Nesse sentido, tanto a abertura parodiando o tão escrachado Pânico, de Wes Craven, quanto a sequência dentro de um cinema tornam-se antológicas por dialogarem de forma tão sacana e esperta com o que é cinema e o que é ser apreciador dessa arte. Todo Mundo em Pânico é obrigatório pra se ver, rever e rolar de rir.

- Rafael W. Oliveira

Comentários (41)

Lucas Moreira | sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2016 - 13:41

Faltou o principal: Requiem para um Sonho, e outros que gosto: X-Men, Premonição, Entrando numa Fria e a Fuga das Galinhas.😉

Augusto Barbosa | sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2016 - 17:55

2000 teve o primeiro filme do Bong também.

Vlademir Lazo | sábado, 13 de Fevereiro de 2016 - 19:08

De 2000 este é bem melhor que As Apimentadas hein: http://www.cineplayers.com/filme/correndo-atras/10403

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