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À Meia-Noite Levarei Sua Alma

(À Meia-Noite Levarei Sua Alma, 1964)
7,4
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Críticas

Cineplayers

O medo da morte como palavrório dos abestados

10,0

O coveiro conhecido como Zé do Caixão aterroriza sua cidade com seu tom de iconoclastia moral contra crendices religiosas, enquanto busca a mulher perfeita que gere um filho seu. Zé é o amoral. Desconjunta o mosaico de uma cidade conservadora com direito ao estupro da Semana Santa e o escambau. A perpetuidade do sangue conforme o propósito da existência. A vida após a morte é a hereditariedade, sem mais. Obra-prima do horror, na criação de um dos personagens mais icônicos, vis e criativos do cinema. A cara da cultura nacional. E popular até o talo  ora, o cara perambula em locais comuns e profana rituais altamente populares. Anda em bar, joga baralho apostado e bebe com o povão, mas, permanentemente os tratando como imbecis crédulos, claro; profana passeatas sacras comendo pedaços de carneiro na Sexta-Feira Santa e invoca esculhambações no cemitério, entre outras fuleiragens. A união perfeita entre o terror tradicional dos monstros da Universal (algo a ser sentido ainda com maior proeminência em Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver), principalmente na figura do Drácula, juntamente a elementos dramaticamente nacionais. O material já começa logo num esquema antinatural. Por meio dum plano fechado do personagem principal com seu discurso filosófico escroto, sem estabelecimento espacial ou leviandades. É a exposição tácita mítica em seu nascedouro, que se segue coerentemente dentro de sua trajetória nesta obra. Um momento histórico do cinema nacional. Ora, não é uma apresentação de antologia, mas, sim, das finalidades de um tipo infame e sagaz. Ele já afirma qual é a sua, e impõe o tipo de tensão que podemos esperar. Ele manda. Decidido.

Filme com vários velórios, numa vinculação do próprio figura com a morte o tempo todo. Corroborando na filosofia do mestre, afirmando o passamento carnal como ponto de interesse. A questão da imortalidade – a famosa hereditariedade do sangue – é perpetuamente imposta, independentemente de onde quer que a mesma venha. O herege e os carolas na Sexta-Feira Santa. A sua iconoclastia é exponencial quando querem aterrorizá-lo com castigos mortais. Assim como quando ele responde sobre o Diabo: "Se eu o encontrar, vou convidá-lo para jantar." Chocando de lapada. Ainda mais num país tão conservador tal qual o nosso, e nos anos 60. Onde qualquer ponto de interferência crítica religiosa gerava um desespero. E nesta cidade, com seu povo em atraso, desde o início o coveiro passa por cima daquela gente. Incitando o próprio poder. Por que essa marmota acontecia? O medo do finamento, via punição através da fé, horripila desde quando o ser humano precisou criar algum tipo de mito religioso na iminência de manter um controle moral e social. Nisso nosso chapa estraçalha sobre aquela turma por ter ressignificado este pavor em si, assim também mantendo o apavoramento alheio eternamente vivo. A extinção de si é um estágio para ele. Uma fase continuada na sua imortalidade na necessidade de levar seu sangue adiante. Isto feito, sua existência teria sido justificada e o papocamento poder-se-ia chegar ao próprio numa boa. 

Ele perambula nos bares. Zé dominando o espaço. Um cara popular. O caminho contrário ao usual na linguagem clássica é visto aqui. O vilão normalmente é o antagonista e não protagonista, mas aqui a fita segue pela visão do Zé. A trajetória é dele. O filme é do monstrengo, enaltecendo-o enquanto ele se impõe sobre um bando de carolas conservadorescos. Faz a ojeriza acontecer. Povão se tremendo, amedrontado por covardia e pelas crendices. População – como o mesmo afirma – "fraca, porque são escravizados pelo que desconhecem". O bando dos abestados supersticiosos facilita o domínio moral do Zé. E a descrença? Não existe descrença quando não se tem crença em porra nenhuma. Pelo menos não em símbolos silenciosos e espirituais. Sem fuleiragens devido a símbolos de reza. O enterrador acredita na carne. Receio teria dos vivos. Por certo, o final acachapante é ainda mais doloroso por isso. Perder para sua falta de crença. Para aquilo no qual não acredita. A desgraça e a razão. Estamos diante de uma besta-fera absolutamente possível. Uma maldade tácita ao invés do sobrenatural difuso. Sempre bebendo, fumando e desdenhando. Em eterno deboche. Herege novamente. Usa a coroa de Cristo do bar no intuito de surrar quem o quer pôr abaixo. Um castigo abjeto. A heresia fisicamente presente. Ironia dele e deboche. Ironia porque uma população, amedrontada com o desconhecido, age violenta e covardemente tal qual uma lá atrás agira com Cristo. E nada mais debochado que o ceifador brasileiro use da coroa do próprio filho do Deus cristão para bater num idiota. Este ceifeiro seria um romano agora? Não. Só um puto sacana controlador. A simbologia da violência e medo do suposto fim carnal na idiotia dos abestados.  

Fotografia em preto e branco de contrastes servindo muito bem ao gênero do horror no que tange à excelência do usufruto de luz e sombra. Por Giorgio Attili. A cartola tendo poder no primeiro plano e no percorrer das sombras nas paredes. Há momentos distintos quanto ao usufruto destas luzes. Existem delas iluminando o sepultureiro com todas as suas fortes expressões mas, em outros tantos, quando em momentos de tensão externas a ele, há um desequilíbrio proposital nisso. Vide as cenas no cemitério, onde o maroto se esgueira nas sombras como uma figura esquálida. Ou seja, a morte estando à espreita as sombras vêm com mais força. O medo externo ao Zé. O cara mete pavor mesmo é no palavreado e na violência. O sepultureiro não é uma figura das sombras, mas é um cara a usá-las. E aqui o animal é a escuridão por conta deste mal causado e a luz pelos conflitos abarcados contra os atrasados. Uma iluminação ideológica e uma escuridão das ações. Uma contradição sensacional. Uma aposta. Um extremo contra o atraso. No horror mesmo os planos se fecham. Enquanto não se está no aterramento propriamente dito, segue-se o padrão dos planos de conjunto aproveitando os espaços e preparando o terreno para futuras tensões. A morte na área das sombras citadas ou na fala do desalmado. Nada escapa ao seu escrutínio. Mas o Zé, ah, para o tal o traspassamento é necessário. Quase como um rito de passagem, faz questão de expor o macabro na qualidade de parte do processo. Sua casa mais parece um museu da desgraça e do esquisito, com caveiras, monstros e mãos espalhadas. E a câmera aproveita bem sua imposição no espaço. 

A câmera maldita segue o Zé, seja no seu discurso ou no de outros, nesse caso, de um. Antônio, seu amigo. Nesta pregação o coveiro perambula dentro dos espaços em silêncio, só escutando, passando e pegando objetos, como alguém despreocupado – e ficando impaciente – com o papo do ignorante, e querendo saber como vai se livrar dele. Uma espécie de deambular de sangue. Até se encher e matar o amigo. Esta câmera o perscruta, o expõe assustadoramente. E com toda esta esculhambação maligna ele ainda intriga com uma empatia doentia que causa. A sua ferocidade contra o atraso e sua valentia frente ao status quo moral estabelecido acarretam o respeito devido. Zé é engrandecido pela imagem. A escolha dos planos é o ponto. Dos supercloses aos contras, como ambos usados na briga do bar, onde a montagem explicita a decupagem horrorífica no crescimento de um mito. O auge do personagem. Trazendo uma figura sem freios, do olhar cheio de veias ao chute dado por cima. O domínio físico do ambiente. O cinema do Mojica segue como um dos mais originais e frontais da história. E seu discurso faz muitas vezes o contrário (uma deambulação ideológica calculada, impositiva, mas sem objetivos difusos), e nessa contradição mora a riqueza de seus personagens. Ordinariamente vívidos e físicos. Este é um cinema físico. Visceral. Táctil. Onde não há escapatória.

Mojica entende o terror com o medo começando pelo visual acachapante de seu figurão principal do palavrório escalafobético e extremo, e, antes que o expectador termine de sentir o choque, as porradas discursivas na forma de suas ações completam o trabalho. Tudo com atenção voltada na imagem, tanto no perseguir do hediondo principal por esta cidade, quanto pelos tão citados supercloses. O horror adentrando na marra. Sem ressalvas. Objetivo. Com espalhafato. Mojica entendia o absurdo como intimidador tácito. O exagero é menosprezado no cinema por tantas vezes que alguém tem que vingá-lo. O horror é o gênero a atingir o expectador de forma mais direta e ligeira, por isso o estrago pode ser feito no abuso. Levemos isso em consideração assim como sabemos duma linha expressionista seguida no Brasil à época, que o Mojica, obviamente, a aloprou mais ainda. 

Diante disso, é bom fazer uma análise de caso interna, a demonstrar o tamanho desse cara no cinema. O plano-sequência foda. 5 minutos. As vozes. A raiva e o desespero. O fim desse monstro? Aqui temos a luta com e contra o seu discurso. Com, por querer manter suas crenças e contra porque as consequências de seus atos comparecem através do sobrenatural sempre negado. Por isso clama estar vivo. A câmera o segue, sem cortes, diante de seus falatórios hereges. O perseguindo em sua morada, onde resume sua trajetória, tal qual uma pessoa vendo sua vida rapidamente antes do óbito das vísceras. Tal qual o cérebro querendo dar algum tipo de alento ou suspiro final a um moribundo. Zé vê a desgraça. As profere. Não somente as pessoas que matou, mas o fracasso da procura da mulher a lhe gerar um filho. Ela se matara por isso. Em seguida os mortos perseguem o coveiro até o cemitério. O garotão se arrasta pelo cemitério em desespero, mas não pelo pavor deles somente, mas por ver suas convicções serem estupradas. O pânico sobrenatural finalmente chega ao Zé. E a metodologia dos planos longos simbolizam a chegada da destruição carnal para alguém a esperar por ela, mas não antes de ter cumprido seu intento. E ela vem seguindo os gritos, calmamente, com uma finalidade. Por isso o desespero. 

O que é mais importante para o horror que o medo? Nada. E o Mojica sabe disso. Como tal, usa do medo da morte dos carolas como ponto central da sua narrativa, à qual é o cerne destrutivo pelo qual o Zé do Caixão personagem alopra sobre esta população. O pavor ao ceifador lhes é tão sacralizado, e justificado por um par de crenças, que julgam suas ações através do fogo infernal cristão. Para o Zé, isto é uma fraqueza, e dela o mesmo se aproveita. E sabendo disso o pilantroso usa sua persona em cima do medo e institui o discurso deste pavor. Uma fita grosseira. Montada na marra. De ritmo brabo. Um cinema truncado. Bruto. Grosso. Cru. Orgulhosamente, genial.

Texto integrante do Especial Zé do Caixão

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