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Críticas

Cineplayers

Um épico gigantesco, que consegue bons resultados visuais, embora esbarre em alguns textos e interpretações.

7,0

Alexandre  é um belíssimo épico e mais um bom filme do diretor Oliver Stone, responsável por algumas outras belíssimas obras como JFK, The Doors e Nascido em 4 de Julho. Dito isso, estranha-se a enormidade de criticismo negativo que o filme recebeu logo em seu lançamento. Dito isso, também, é importante ressaltar desde já que Alexandre é um filme com inúmeras falhas que, se tivessem sido bem tratadas, poderiam ter feito deste filme um sucesso muito maior, ao menos criticamente. Em um ano onde Tróia  foi visto sem muitos fogos (é um filme tecnicamente lindo, mas assim como Alexandre possui um roteiro bem irregular), Alexandre foi lançado com pompa para ser o "épico do ano". Quase isso!

Todos nós - creio - já aprendemos ao menos o básico da biografia de Alexandre na escola, afinal ele foi o maior conquistador que a humanidade já concebeu. Filmar biografias já é fato comum a Oliver Stone (dois dos três filmes citados no parágrafo anterior eram biografias), mas uma da abrangência de Alexandre - o Grande sem dúvida deve ter sido um trabalho monstruoso para os roteiristas. Aí que entra uma das principais reclamações que posso fazer em relação ao roteiro: entre tanto material disponível, ele às vezes toma decisões duvidosas em relação ao que acabou sendo mostrado no produto final. Temos muitas - e longas - cenas de relacionamento (seja entre amantes, mãe ou esposa) que mostram que o filme tentou desvendar profundamente sua vida pessoal, deixando muitas partes de sua vida como conquistador de lado. O resultado de tudo isso é uma mistura entre cenas de ação - estas sim, espetaculares - e tragédias pessoais que em pouco tempo tornam-se estafantes.

Se ao menos tais tragédias pessoais tivessem sido realizadas de forma correta... Ah, o filme seria muito melhor! Mas as interpretações, sobretudo Rosario Dawson, a primeira esposa de Alexandre, fazem algumas cenas de textos razoáveis soarem ridículas na tela. O filme é bem pretencioso em seus diálogos, mas saindo da boca de atores e atrizes de capacidade duvidável, a maioria deles soam ridículos. Anthony Hopkins é o narrador da história, e nem deve ser contado como parte do elenco. Colin Farrell, surpreendentemente, acabou sendo uma das poucas boas surpresas do filme. Seu personagem é complexo e ele exibe geralmente muito bem todas as suas facetas, podendo até mesmo ganhar a simpatia do público com sua personalidade, como ganhou a minha - um herói para o qual vale a pena torcer. Val Kilmer, Angelina Jolie e outros dispensam maiores comentários - interpretam do jeito que estão acostumados: nem de forma ruim nem de forma extraordinária.

Então o melhor mesmo, em termos de roteiro, fica com a ação. O filme surpreende ao não mostrar uma quantidade enorme de batalhas - são apenas duas batalhas-chave, porém estas poucas cenas são não menos que sensacionais. A primeira batalha, principalmente, contra o exército do rei Dario, já está em minha lista de cenas de ação preferidas em todos os tempos, conseguindo ficar muito próxima, por exemplo, da batalha nos campos de Pelennor, de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. A intensidade, a trilha sonora de sons graves e muito bem colocados, gerando tensão e ansiedade, as expressões dos combatentes, enfim, tudo foi orquestrado maravilhosamente por Oliver Stone. É verdade que a sequência falha em demonstrar o incrível nível estratégico de Alexandre para o público comum - a não ser nas cenas aéreas, fica difícil visualizar na prática seu planejamento de vitória - porém isso não é suficiente para tirar o esplendor da cena. A batalha final também não é menos interessante, embora assuma características bem distintas.

No final das contas, pode-se dizer que Alexandre certamente não apresenta o que muitos esperavam, que foi muita ação, tentando desenvolver o lado pessoal do general e conquistador, algo que, como já foi comentado, faz com tropeços. O maior problema é que é um filme muito longo (175 minutos) e o excesso de diálogos (boa parte deles não são muito relevantes) acaba por ser o calcanhar de Aquiles do filme. O filme também recebeu uma montagem no mínimo insatisfatória. Na tentativa de mostrar um pouco de cada período da vida do personagem (infância, adolescência e fase adulta), Oliver Stone nos submete a cortes bruscos, seguidos de legendas "X tempo depois", o que ficou bem estranho e feio, para ser mais sincero. Por essas e outras que Alexandre às vezes não deixa de ser confundido com um épico (mais) barato feito diretamente para a televisão. Faltou um tratamento mais caprichado, embora a culpa também deva ser do estúdio, que pressionou muito Oliver Stone a manter-se em um meio termo entre mostrar o bissexualismo do personagem e não mostrar. Nesse caso uma versão do diretor seria bem-vinda, mas, pensando melhor, quem vai querer ver algo ainda maior (e quase certamente mais estafante) de um filme que tem em seu ponto mais fraco diálogos que parecem interminavelmente desnecessários?

Pelo menos deve-se parabenizar o trabalho de Oliver Stone, por este mostrar-se razoavelmente ousado para os padrões de uma grande produção de Hollywood. É algo difícil de encontrar nos dias atuais, mas serviu mais uma vez de exemplo para mostrar que o público casual NÃO gosta de ousadia. Pelo menos a maior parte dele. Alexandre foi um dos maiores fracassos financeiros em território norte-americano da década, e só se pagará pela recepção regular que está tendo fora dos Estados Unidos e, claro, posteriormente pela vendagem de DVDs e licença para televisão. Baz Luhrmann, diretor de Moulin Rouge (fenomenal), tinha em seus planos também um filme sobre o conquistador. Agora é esperar para ver o que acontece: se devido ao fracasso o projeto vá direto para a gaveta por medo de repetir o vexame ou se ele finalmente terá começada a sua produção, para tentar acertar onde Stone "errou".

Mesmo sendo irregular (para não dizer "chato"), não apresentando muita ação ou ao menos tragédias pessoais que realmente valham serem assistidas, Alexandre é um filme muito bom - em alguns momentos espetacular - que foge um pouco do que Hollywood vem fazendo há anos e deveria ser assistido no mínimo pelo seu visual sensacional (fotografia variadíssima) e pela trilha sonora muito boa nas cenas de batalhas. Oliver Stone não vai levar um Oscar pelo filme, porém não fez feio de forma alguma e pode ter mantido a sua reputação - pelo menos para quem já gostava dele. Já Colin Farrell mostrou bastante talento, embora ainda não o suficiente para colocá-lo entre os melhores atores da atualidade. Pelo menos provou seu carisma e atitude. Não é um épico para gerações, apenas um filme que provavelmente será lembrado daqui há 10 anos com comentários indiferentes. E sigamos em frente!

Atualização - 22/08/2005

Alexandre - Versão do Diretor

Com o lançamento em DVD, Alexandre chegou com duas opções: a versão dos cinemas e um novo corte, conhecido como "Director's Cut". Surpreende o fato de a versão do diretor ser praticamente 10 minutos menor. As alterações não fazem desta versão um filme melhor ou pior, na realidade, talvez menos enfadonho para aqueles que já não gostaram da versão original (não foi o meu caso, como pode ser conferido na crítica original aí em cima) por causa da menor metragem.

Há menos cenas que indicam a bissexualidade de Alexandre, com menos cenas insinuantes entre ele e Heféstion e algumas poucas cenas foram estendidas, ou seja, há algum material novo, como a presença de todo um novo e grande diálogo entre Alexandre e sua mãe. Na realidade, essas novas cenas pouco adicionam à história.

Agora, a maior mudança mesmo foi em relação ao fluxo narrativo do filme. Antes ele seguia mais ou menos uma linha do tempo ascendente, fora as intromissões da narração do personagem de Hopkins. Agora a linha do tempo está toda recortada. Oliver Stone adicionou todo um conceito não-linear para a história do filme. Ou seja, espere encontrar a cena da morte do pai de Alexandre apenas na segunda metade, por exemplo. Enfim, não vi grande necessidade para tais alterações e uma versão do diretor nessas circunstâncias não se justifica. Mas como eu já disse, elas não tornam o filme melhor nem pior, apenas um pouco diferente.

Comentários (1)

Luiz Fernando de Freitas | sábado, 22 de Fevereiro de 2020 - 13:30

A versão definitiva do filme, é de longe a melhor. Um épico magistral subestimado e bastante incompreendido.

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