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Almas Perversas

(Scarlet Street, 1945)
8,7
Média
185 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Na teia do destino

10,0

O destino é um senhor soberano quando o assunto é filme noir. Ele pode ser tanto favorável como carrasco com os personagens, ou até mesmo pode começar de uma forma e mudar sem prévio aviso. Uma vez dentro de um destino cruel, a tendência é se elevar ao máximo para depois cair, cair, cair até alcançar o fundo do poço. Fritz Lang desenhou esse torturante zigue-zague de sorte e azar com seus filmes gêmeos Um Retrato de Mulher (The Woman in the Window, 1944) e Almas Perversas (Scarlet Street, 1945), filmados em sequência e com o mesmo elenco. Um parece o déjà vu do outro, uma mistura de rostos, situações, cenários e tramas que se encontram em alguns pontos, se refletem em outros e por fim se refratam. Enquanto o primeiro se desenha como um sonho no qual o personagem central se vê no controle e consciência da narrativa, o segundo assume de vez o noir em sua essência ao coloca-lo encurralado pelo destino.

Edward G. Robinson interpreta em ambos um homem comum, ordinário, que de repente se vê envolvido numa trama perigosa ao ter seu destino cruzado com o da famosa femme fatale, interpretada nos dois filmes por Joan Bennett. Um Retrato de Mulher trará o personagem no comando da situação, um porto seguro a proteger a indefesa mulher que, embora ganhe a vida por meios escusos, não passa de uma vítima de seu próprio sexo em uma cidade perigosa. O mesmo Robinson ressurge em Almas Perversas como um ingênuo banqueiro e aspirante a pintor que é incapaz de perceber o ardil de Joan Bennett, desta vez encarnando a femme fatale vil e manipuladora que só pensa em extorquir seu dinheiro a mando do amante violento. Dan Duryea, terceira peça desse quebra cabeça, é o único ator que permanece nos dois filmes na pele de um personagem igualmente asqueroso, como que usado por Lang para perpetuar a ligação entre as histórias e criar entre elas uma via de mão dupla pela qual signos, diálogos, frames, planos e contra-planos possam transitar livremente.

Nesse jogo de espelhos, centraliza-se refletida e replicada a figura feminina no quadro. Como um Mona Lisa de sorriso enigmático, Bennett se encontra em ambos os filmes pintada em um retrato exposto numa vitrine, hipnotizando e assombrando Robinson em pontos estratégicos das histórias, que nos fazem relembrar o que é essa presença soberana e inatingível da mulher em um filme noir. Em Almas Perversas, ela chega a submeter o homem literalmente, na icônica cena em que Kitty ordena que Chris pinte suas unhas dos pés. Na América da Hollywood dos anos 40 e 50, mergulhada em amargura e desespero financeiro, era próprio do cinema colocar o homem como uma vítima da desumana expansão urbana, enquanto a mulher era representada como uma espécie de Eva sedutora a corrompe-lo com a luxúria e a ganância. Isso faz de Almas Perversas um noir autêntico – cínico, cruel, sexual, amoral –, enquanto Um Retrato de Mulher é seu oposto idealizado, no qual o homem ainda mantém sua integridade moral, domina seu próprio destino e permanece no papel de protetor/salvador da mulher.

Através dessa curiosa construção de filmes paralelos, Lang se possibilitou brincar com os dois lados de uma mesma narrativa, ora idealizada no sonho, ora devastada quando diante da realidade assoladora. Ao colocar seu casal de atores em personagens fisicamente parecidos, porém opostos em personalidade, ele também discutia a questão da identidade e dos duplos, ou a capacidade humana de guardar em si contradições e ambiguidades, algo que era muito próprio do noir. O cinema americano de gênero até então era muito ancorado em divisões categóricas de mocinhos e vilões, heróis e bandidos, mas a Lang interessava explorar essa zona cinzenta em que um homem de família aparentemente comum e virtuoso se mostra capaz de entrar num romance extraconjugal ou talvez até mesmo de se envolver num assassinato. Almas Perversas mergulha mais a fundo, desconstruindo tudo aquilo de farsesco e seguro do filme anterior, para despi-lo e questiona-lo em um ambiente em que nada pode ser feito para reverter as situações, um mundo onde não há soluções salvadoras ou redentoras. Muitos desses princípios temáticos e narrativos foram de grande influência para outros noir da época, além de base para o cinema de diretores como David Lynch.

Ao encarar na vitrine o retrato da mulher pintada, o Robinson autossuficiente de Um Retrato de Mulher e o Robison derrotado de Almas Perversas parecem finalmente se enxergar refletidos um sobre o outro, no exato ponto narrativo em que as histórias se tocam. Como é costumeiro no noir, os reflexos revelam um lado até então desconhecido daquele personagem, tanto para o espectador quanto para o próprio personagem. Uma vitrine frágil e facilmente transponível separa o sonho da realidade, o pesadelo da ilusão, o duplo bom do duplo mau, aquele que se é daquele que se esconde dentro de si. Entre eles, apenas a escuridão da noite que cai sobre a cidade e o sorriso indecifrável da mulher.

Comentários (3)

Igor Guimarães | terça-feira, 31 de Março de 2020 - 06:49

Belo texto, Heitor. Filme impecável

Carlos Eduardo | terça-feira, 31 de Março de 2020 - 07:23

Fritz Lang era incapaz de fazer um trabalho ruim. Almas Perversas é um caso raro de uma obra que foi lindamente adaptada para o cinema duas vezes. Uma com Renoir e depois com Fritz Lang.

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