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Críticas

Cineplayers

Spin-off de Invocação do Mal fica longe de repetir o sucesso do original.

3,0

Faz um bom tempo que o cinema norte-americano tem encontrado dificuldades com o terror. Enquanto outros países – especialmente orientais e a França – revelam-se bem-sucedidos na criação de narrativas originais do gênero, os Estados Unidos seguem reciclando ideias e adotando clichês que já se tornaram paródias de si mesmos, o que explica o excesso de remakes lançados nas telas todos os anos. Entretanto, se as histórias pouco oferecem de inovador, ocasionalmente ainda surgem alguns cineastas capazes de compreender o gênero e realizar filmes competentes, como é o caso de James Wan, responsável pelos bons Sobrenatural e Invocação do Mal.

Este último tornou-se um surpreendente sucesso ano passado, especialmente pelo talento de Wan, que se mostrou capaz de superar os lugares-comuns do roteiro ao construir uma atmosfera angustiante de tensão, deixando de lado os sustos baratos e fugindo das armadilhas do gênero. Obviamente, já há uma continuação a caminho, o que não impediu o desenvolvimento de um spin-off baseado na boneca Annabelle, vista apenas de forma secundária na trama de Invocação do Mal. Annabelle, no entanto, está longe de repetir o feito de seu predecessor, revelando-se um produção genérica, executada de forma desleixada e desprovida de qualquer sensação genuína de nervosismo.

Dirigido por John R. Leonetti, cujos dois filmes anteriores são tão ruins que é melhor nem citá-los, e escrito por Gary Douberman, também dono de um currículo nada lisonjeiro, Annabelle parte da suposta história real (como contada pelo casal Warren) da boneca para desenvolver – se é que a palavra “desenvolver” pode ser usada aqui – uma trama totalmente fictícia, com personagens e situações novas. O resultado é desastroso. Do confuso trabalho de direção de Leonetti, passando pela trama repleta de furos e chegando até a vexatória atuação da dupla principal, Annabelle nada tem a oferecer a plateia.

Em primeiro lugar, o cineasta parece jamais se decidir sobre o tipo de filme que deseja realizar. Longe do domínio demonstrado por James Wan, por exemplo, que trabalhava cuidadosamente seus planos (e até mesmo o extracampo), Leonetti não entende a necessidade de adotar uma lógica visual para a sua narrativa, apostando em todo tipo de recurso: há cenas mais estáticas, outras com planos longos, trechos em steadycam, planos-sequência atrapalhados, utilização de grande-angular, câmeras de segurança subjetivas e outras opções duvidosas que, em sua maioria, funcionam apenas como distração, uma vez que não possuem um objetivo definido – ou, quando possuem, falham em alcançá-lo.

Leonetti, da mesma forma, passa longe de ser um realizador sutil, que confia em seu espectador. Essa percepção fica clara logo no início do filme, quando desloca por duas vezes o foco da câmera para a barriga de sua protagonista, como se precisasse gritar para a plateia: “Ela está grávida, viram? Grávida!” E se os planos desnecessariamente expositivos não fossem o bastante, Leonetti ainda revela-se simplesmente despreparado – para não dizer ruim mesmo – em diversas cenas orquestradas de forma tosca, que chegam quase a se tornar risíveis, como a do incêndio e, principalmente, a do caminhão, um atestado de amadorismo em termos de direção e decupagem.

O maior problema da condução de John R. Leonetti, no entanto, é exatamente a percepção equivocada daquilo que realmente define um filme de terror de qualidade. O cineasta faz parte daquele grupo de diretores preguiçosos, que prefere apostar em sustos repentinos – e previsíveis –, com o apoio da trilha sonora que surge a todo volume, do que na construção de um clima de tensão constante e palpável. Dessa maneira, Annabelle simplesmente não se sustenta, dependendo de momentos ocasionais, já que o espectador não se preocupa com o que pode acontecer aos personagens. Ainda assim, justiça seja feita, Leonetti constrói ao menos uma cena que atinge o objetivo de manter a plateia na ponta do assento: aquela do elevador na lavanderia.

Mas é só. O restante do filme é um acúmulo de obviedades como visto milhões de vezes antes, inclusive apostando no básico do gênero, sem acrescentar qualquer resquício de inspiração: são aparelhos que ligam sozinhos, rabiscos que surgem em paredes e até mesmo cadeiras de balanço movimentando-se aleatoriamente. Para piorar, o roteiro de Douberman destaca-se pela incoerência e pelos caminhos questionáveis que decide seguir: afinal, por que ela decidiu aceitar a boneca de volta? Será que nenhum cogitou queimar ela? Por que dizem não se tratar de um fantasma, se o espectro de Annabelle Higgins segue aparecendo? As crianças que desenharam a história do caminhão, que fim levaram? E o machucado que desaparece do braço dela? Era tudo ilusão? Sem contar, claro, o fato de que a protagonista é a pior mãe do mundo, deixando um bebê sozinho em casa, mesmo após várias ocorrências, para ir lavar a roupa.

Falando na protagonista, é difícil se lembrar de algum casting mais equivocado em um filme do primeiro escalão hollywoodiano nos últimos anos. Annabelle Harris (que só pode ter sido contratada em função de seu nome) é espetacularmente ruim. Seja as cenas em que precisa passar desespero, seja aquelas em que deve transmitir emoção ou seja simplesmente a entrega de uma linha de diálogo, a atriz demonstra uma inexpressividade e um artificialismo incríveis, como se estivesse em uma produção amadora do Ensino Médio. Já Ward Horton, mesmo que se saia levemente melhor, também carece de carisma, e a falta de talento de ambos e a ausência de química entre os dois acabam afastando o espectador de qualquer possível identificação com o casal.

Annabelle é o tipo de filme que mostra ser possível prever o futuro. Casa solução de roteiro é antecipada sem grande dificuldade, tamanha a falta de ousadia de Gary Dauberman e John R. Leonetti – o final ainda flerta com uma resolução corajosa, mas logo se acovarda e encerra de forma, no mínimo, imbecil. Nem mesmo as citações a O Bebê de Rosemary são capazes para tornar a experiência mais agradável.

Quando estreia o próximo filme de James Wan?

Comentários (18)

Luiz Fernando de Freitas | sábado, 01 de Novembro de 2014 - 10:24

Esta questão do desaparecimento do machucado é explicado durante o filme no relato de um outro caso de Anabelle (se não me engano da enfermeira) e em Invocação do Mal isto acontece também e ninguém reclamou.

J M P | domingo, 25 de Janeiro de 2015 - 22:11

Annabelle mal aprece no filme

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