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Caso Richard Jewell, O

(Richard Jewell, 2019)
7,5
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Críticas

Cineplayers

O herói, as instituições e o Terror

8,0

Com O Caso Richard Jewell, Clint Eastwood nos entrega um filme histórico ambientado cerca de um quarto de século atrás. Desde as imagens de arquivos, como a cena marcante que foi Muhammad Ali acendendo a tocha na Olimpíadas de Atlanta em 1996 (e algumas das provas de atletismo) até a reconstituição daquele mundo tão próximo e parecido com o nosso, porém de fim de século que cada vez mais vai se distanciando. Podemos ter lembranças indiferentes ou antipáticas a coisas como o som e a dança de “Macarena”, e por mais que a música soe ridícula, a brevíssima sequência que a inclui é um registro de como as pessoas se divertiam em meados da década de noventa.

O Caso Richard Jewell trata de um dos temas principais do novo século, o terrorismo, presente em outros trabalhos de Clint, como Sniper Americano (idem, 2014) e 15h17: Trem Para Paris (The 15:17 to Paris, 2018). Um dos bons filmes exibidos nos cinemas brasileiros no ano passado, Amanda (idem, 2018), de Mikhaël Hers, era sobre lidar com o luto após o trauma de uma perda em um atentado terrorista. Clint, no entanto, procura fazer estudos e perspectivas de como o espectador bem como a opinião pública encaram os personagens colocados nas circunstâncias de combate ao terror. O conflito em Sniper não é muito diferente do que progressivamente se encaminha como uma guerra velada nas ruas, da força policial contra os mais pobres, com muitos destes sendo cada vez mais empurrados para a periferia ou massacrados de vez. Na ficção hollywoodiana, como na realidade daqui nas ruas brasileiras, o extermínio é odioso, mas o filme definitivamente não faz uma apologia ou defesa do conflito nem coloca os muçulmanos como animais ou merecedores da morte, nem mesmo na polêmica cena do assassinato de uma criança. Se há um absurdo, é o absurdo da guerra injusta que lá e a aqui os donos do poder nem sempre fazem o suficiente para deter. Há também o protagonista meio máquina de guerra, quase desumanizado, não uma caricatura como as que identificamos facilmente nos filmes voluntariamente mais torpes, e sim vivendo em um mundo próximo das ações e batalhas de um game e mais distante da família do que gostaria. O que remete um pouco também a Matt Damon e sua frustração pela impossibilidade de aproximação afetiva em outro negligenciado trabalho do diretor, Além da Vida (Hereafter, 2011). Um outro dos temas principais de toda carreira do Clint. Caprichasse mais na dramaturgia e Sniper seria obra-prima, e não apenas um filme instigante, mas eis um cineasta que costumeiramente se recusa a ser óbvio.

No menor, porém subestimado 15h17: Trem Para Paris, o espectador que se incomoda com a ambiguidade inevitável do mundo quando ela é retratada na tela tende a encarar os protagonistas (vividos pelos próprios personagens reais) como imbecis ou idiotas, mas este é um olhar do espectador, não do filme, que não os glamouriza ou tampouco exagera suas importâncias, apenas os coloca como homens treinados naquele sentido hawksiano a fazer os seus trabalhos da melhor maneira possível ou a não fugir das responsabilidades quando estas menos se espera lhes surgem pela frente. O que não é muito diferente do personagem-título de Richard Jewell (Paul Walter Hauser), que também sofre os seus preconceitos, só que no ponto mais baixo da escala social, por ser balofo e até mesmo medíocre na vida em sociedade, só que eficientíssimo em questões policiais e de proteção e segurança, ao ponto de ganhar de um dos seus chefes o apelido de Radar. Um herói ou uma fraude?

É uma questão que vai se impor de modo dramático no próprio filme. O homem contemporâneo, o funcionário seja do Estado quanto da vida privada, é visto quase como a mulher de César, precisando estar acima de qualquer suspeita. À quem poderia interessar um atentado a bomba num show musical durante os Jogos Olímpicos? O FBI, com o reforço posterior da mesma mídia que explorara a condição de herói de Jewell, conclui que o personagem forjara o incidente para se beneficiar e se projetar e se promover na escala policial de homem da lei que ele tanto ambiciona. Não importa se Jewell parece sincero desde o começo ao insistir que seu gesto nada teve de heroico. Estamos no terreno das narrativas fortemente implantadas, com uma repórter ardilosa (interpretada por Olivia Wilde), ela própria desejosa de projeção e ascensão na carreira, em busca de um furo jornalístico, como uma bomba que iniciará um outro processo de terror tendo o protagonista como alvo.

O Caso Richard Jewell remete àquelas obras de Joseph Losey, do homem comum perseguido e acossado por organizações sejam estas do Estado, da mídia ou de um diferente poder paralelo, bem como do falso culpado, o indivíduo acusado por um crime que não cometeu, de tantas fitas de Alfred Hitchcock, a destacar a obra-prima O Homem Errado (The Wrong Man, 1957). Jewell e sua mãe (interpretada por Kathy Bates, notável e indicada ao Oscar de coadjuvante) parecem presos a um pesadelo e à beira da loucura semelhantes ao casal do filme de Hitchcock. Em Clint, no entanto, o suspense nunca suplanta o drama (e este se aproxima da tragédia), mesmo com o diálogo com autores clássicos.

Diálogo que acontece por Clint ser advindo do tempo daqueles realizadores, e não por ser responsável por um cinema clássico, o que é só uma falácia para explicar a distinção de Clint para com grande parte dos filmes contemporâneos. Clint faz cinema, e ponto. O que muitos dos contemporâneos realizam é o resultado de formas hibridas do cinema com o nosso olhar violentamente corrompidos pela estética dos videogames, da publicidade, ou da televisão. Filmes como 15h17: Trem Para Paris e Richard Jewell, por outro lado, são manifestações evidentes de uma pura construção cinematográfica.

Para encerrar, Clint Eastwood por vezes se esmera na desconstrução de uma América contemporânea, esteja ela sob o jugo de democratas ou republicanos. No anterior e excepcional A Mula (The Mule, 2018), era o mito de que o americano médio poderia angariar fortuna apenas trabalhando (no caso, como horticultor) que se desfazia. Em O Caso Richard Jewell, a prova de que nem sempre a meritocracia, por maiores que sejam os méritos e os esforços despendidos, pode estar ao alcance dos que a merecem.

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