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Dark Star

(Dark Star, 1974)
6,3
Média
43 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O avacalhar espacial filosófico de um artífice futuro da putaria

7,5

Temos aqui a estreia do mestre horrorífico rasgado, politizado e cínico. John Carpenter. Material ainda cru comparado a todo o sarro que estaria por vir. Por enquanto teríamos alguma brincadeira na base do baixíssimo orçamento num sci-fi espacial, em que uns abestados estariam de prontidão para destruir planetas pelo caminho. Com a justificativa de criar estradas estelares em viagens interplanetárias. Esta é uma fita que o carpinteiro e seus amigos preconizaram a fim de experienciar vários elementos da ficção científica numa narrativa simples com o modus operandi do sarro ligado alto.

É usual ligarmos John Carpenter ao seu material mais conhecido, sombrio e sádico, por assim dizer, mas aqui ele já começara a demonstrar talentos pelos quais ficaria conhecido. O trato da câmera é um dos principais pontos a ressaltar da fita. Aliás, isso o carrega sempre, seu cuidado artesanal para com a escolha dos planos. Neste seu primeiro trabalho, o destaque fica para a constituição imagética da nave haja vista o paupérrimo orçamento utilizado. A tal nave dispõe de objetivação clara com seu exterior em contato no espaço dando a entender o perigo desse vazio ao mesmo tempo que o roteiro brinca com este perigo. Algo equilibrado no filme. Lembremos, este John não é o totalmente aloprado e desequilibrado. Ainda não. Internamente a cosmonave é filmada de maneira a aproveitar a claustrofobia de latas espaciais, algo hoje obrigatório para o medo, principalmente pela influência monstruosa do Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, 1979), esquema também roteirizado por Dan O’Bannon. Mas esta claustrofobia do Dark Star (1974) se conurba juntamente ao humor pastelão desengonçado. E a câmera estática algo habitual na carreira do mestre dá oportunidades aos personagens para que cometam suas interações.

A nave chegando e a trilha. Cara dos vídeos terroríficos dos anos 50. Opção esperta ao impor a tensão através da imagem insólita da nave através do nada e nisso fechando o plano. Tal qual um monstro dos anos 50. E juntamente à comicidade impressa cria-se homenagem a um tipo de cinematografia que vendia matéria para o medo mesmo, mas, em grande parte, cometia a jocosidade involuntária. O animal na direção, sabendo disso, cria este mistão entre horror e humor, mas dando agora um caráter escrachado em comparação ao sci-fi desenvolvido até então, tão sério na sua massacrante maioria até ali, pelo menos objetivamente.

Ações justificando a narrativa primitivamente. Com o estabelecimento da missão e seus personagens, além do tom da obra. É básico ao mostrar os elementos iniciais do material com aquilo que realmente dá certo diante da missão para, em seguida, tudo começar a avacalhar. Assim criamos um vínculo daquilo que poderia ser desenrolado e o que fora feito errado, isto por já termos vivenciado a correta experiência inicial. É primitivo e funcional. Mesmo por um esquema de porralouquice não pedir isso, a escolha fora acertada. Com as poucas imagens iniciais da capacidade destrutiva da nave, serviria para aumentar – e frescar – na tensão final do longa.

A contradição é elementar e basilar aqui. Enquanto a imagem tem certo equilíbrio tácito entre os elementos captados, a narrativa é mais dura. Engasgada. Acaba por gerar certa confusão nos não iniciados no cinema do Carpenter e suas grossuras narrativas. Neste aqui, a comédia e o terror espacial, via desafio e isolamento, não se conurbam facilmente. Tendo suas passagens de um para o outro a condução abrupta de seus personagens, ora envolvidos nalguma piada esquisita e noutra tendo que resolver um problema sério de morte. Mas esta confusão é interessante. A grosseria do maluco funciona nisso. Porque o cosmos tem que ser explicado sem confusão? Não que isso fosse exatamente intencional. A ideia dos envolvidos além da curtição seria a curtição pelo avacalho. Há também os desacordos deliciosos do cinema. Como nas tentativas da captação humorística no usufruto de melodia mais carregada. A perseguição cômica do alienígena redondo e ridículo e a música pesada por trás. Ainda mais quando o usual neste suposto desacordo é exatamente o contrário, com peças musicais mais acalentadoras e imagens pesadas. Estas inversões são deliciosas. Canções estas, por sinal, conferindo já o início de contato do chefe com a música, algo usual a seus filmes e algo absolutamente idiossincrático tanto nas escolhas do uso quanto na feitura propriamente dita das mesmas. Muitos sintetizadores. Um mestre estava iniciando uma de suas características mais marcantes. E numa trilha que compreende drama, tensão e comédia, acertando em todos os artifícios. A melhor coisa da fita.

Esta coisa-filme ainda guarda ao menos uma singular cena beirando o genial, pelo alopramento de sua existência e em como se utiliza de piada filosófica não para se resolver, mas, sim para se confundir e, por fim, se autoavacalhar. É a cena da bomba senciente. Penso, logo existo. Para se convencer que uma bomba-viva e com inteligência artificial não cumpra sua função final explodir, obviamente , parte-se para a ideia que se a bomba existe e pensa ela logo existe e pode tomar decisões sobre certezas e incertezas. A existência. A convicção. O questionamento existe, o pensamento, e, logo, o ser. A frase vem de René Descartes em "Discurso do Método", de 1637. Esse era um cara desconfiado de tudo, muito pela falta comprobatória que fosse dos estudos do século 17. Muito por conta da influência da igreja católica nos mesmos estudos. Ora, o não aceitar de verdades absolutas sempre fora algo caro à filosofia do Ocidente. A mãe de todas as ciências já prega a dúvida como mote principal. Sócrates popularizou a brincadeira com os transeuntes atenienses e isso foi permeando num crescente na doutrina ocidental chegando no Descartes. Este figura quebra o método aristotélico por querer atingir a tal verdade incontestável, não sem antes derrubar tudo que fosse duvidoso. A ideia era duvidar do todo para em seguida quebrar este todo e destas sobras viesse a emergir a verdade. Ora, o exemplo desta possibilidade viria com o existir de si mesmo. Se tens dúvidas, não pode continuar a tê-la da existência de si, já que estares a pensar. Pensou, existiu, duvidou, converteu. Assim a viagem intergaláctica piadista e desengonçada caminhara até para tirar uma onda filosófica, porque uma bomba tomou consciência de si e avacalhou tudo explodindo do mesmo jeito, mas não antes de ter certeza de que era um ser.

Aí dentro. Bom material de estreia do mestre.

Comentários (1)

CitizenKadu | domingo, 19 de Abril de 2020 - 07:36

Aí dentro...excelente texto para um filme pelo o qual eu tenho um grande apreço.O conceito da bomba-viva, lembro quando assisti o filme pela primeira vez o quanto a revelação da mesma me causou admiração.

Ted Rafael Araujo Nogueira | terça-feira, 21 de Abril de 2020 - 14:09

Valeu bicho. Cara também me surpreendi positivamente. A sacada é bem esperta e encaixa perfeitamente com o clima anárquico do filme.

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