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Era Uma Vez em... Hollywood

(Once Upon a Time in... Hollywood, 2019)
8,1
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Críticas

Cineplayers

O mundo ideal de Quentin Tarantino

8,5

Quentin Tarantino é conhecido mundialmente como o mais cinéfilo dos cineastas. Ou o mais cineasta dos cinéfilos. Um dos mais, como queira, goste ou não — há quem ouse. O fato é: seu cinema é (autor)referencial e laudatório à sétima arte, e isso atinge o ápice em Era Uma Vez Em... Hollywood. A cinefilia, objeto importante em sua obra, aqui se torna substantiva, base motriz de cada uma das inúmeras set pieces de seu nono e novo filme. Assim, a devoção do cineasta pela arte que pratica se estende a tudo, até aos personagens (os quais tanto destrata em seus filmes), e seu cinema alcança um grau de afetividade inédito. É um Tarantino jamais visto anteriormente. Sem, com isso, deixar de ser, característica e inconfundivelmente, o mesmo Tarantino de sempre. Um tanto mais surpreendente e fascinante.

Era Uma Vez Em... Hollywood lembra muito, em termos de concepção e proposta, o que vimos recentemente em La La Land -  Cantando Estações. Bem como Damien Chazelle volta no tempo para homenagear os musicais clássicos da França e da Velha Hollywood, situando Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) em uma Los Angeles romantizada que não viveu para realizar um sonho próprio do cineasta, Quentin Tarantino emula a receita no tempo e lugar com que mais se identifica: a Nova Hollywood, período em que a Nouvelle Vague francesa e a própria contracultura norte-americana (beats, hippies etc) contaminaram os cineastas estadunidenses —  que então se rebelariam contra o sistema de estúdio para construir um cinema norte-americano independente e autoral, como é o cinema de Tarantino. 

Em certa medida, Era Uma Vez Em... Hollywood soa como um filme inspirado em "Como a Geração Sexo Drogas e Rock'n'Roll salvou Hollywood". Tão embevecedor quanto o livro de Pete Biskind, dotado da incrível capacidade de fazer o leitor sentir saudade de algo que não viveu. E por causa de uns momentos gossip, vide a divertida cena em que Steve McQueen (Damian Lewis) fofoca sobre o "tipo de homem" de Sharon Tate (Margot Robbie). Mas o objetivo de Tarantino é outro. Em um contexto maior, cito Sergei Eisenstein: sua tarefa é aquela imanente da arte, "revelar as contradições do ser", em muitos níveis. Em um primeiro momento, encenando o choque do status quo vigente com a ascensão da contracultura do fim da década de 1960.

À superfície, isso ocorre de forma espantosamente idealizada e pacífica. Com todo o glamour da Era de Ouro de Hollywood sendo emoldurado por uma fotografia saturada, uma paleta de cores igualmente solar, alegre, e uma atmosfera efervescente. O legado de sonho americano dos anos 50, ilustrado por um verdadeiro desfile de lindos carros antigos em largas ruas rodeadas por letreiros luminosos. Enfim, um universo expressamente idílico. Os conflitos, por sua vez, residem nas sutilezas, e assim é construído todo o filme. No rancho abandonado de westerns antigos, cuja ocupação pela gangue de Charles Manson ilustra um efeito colateral da mudança. Nos hippies que desprezam o capitalismo (e logo se levantarão contra os artistas que ostentam riqueza) e passam o filme inteiro pedindo carona no grande símbolo material desse sistema. No astro que desaba ao constatar seu declínio, no dublê que (sobre)vive da glória do outro e chafurda no ostracismo. E até mesmo no modo com que Tarantino explora um aspecto singular: a sensualidade.

Em seu filme mais sexy, a beleza convive em uma relação paradoxal de choque e harmonia com a decadência. O corpo esbelto de Pussycat (Margaret Qualley) se move, o tempo todo, de modo a realçar suas curvas — e sempre que a câmera passeia em suas pernas, a tela exalta o desleixo da jovem hippie. Do mesmo modo, as cicatrizes e marcas de expressão de Brad Pitt destoam de seu vasto penteado — um pouco grisalho, o resto dourado , seu bronzeado, seu corpo perfeito, sarado. Tarantino não poupa nem o seu fascínio por pés, sempre em close e sempre imundos. Perfeição e desleixo, velhice e juventude, encanto e sujeira. Contrastes. Que se harmonizam em figuras esteticamente deslumbrantes. Era Uma Vez Em... Hollywood se vale demais dessas contradições e sua essencial complexidade.

Atenção! O texto a seguir contém spoilers!

Em si, involuntariamente, quando os blocos semi-independentes que compõem a narrativa (algo que Tarantino realiza com primor em Pulp Fiction  - Tempo de Violência) revelam problemas de fluidez e coesão, ou soam esticados demais, comprometendo o ritmo do longa-metragem ao mesmo tempo em que, em contrapartida, essas peças o enriquecem em outras frentes. Em dado momento, Era Uma Vez Em... Hollywood dedica longos minutos a um dia na vida de Sharon Tate; e o que soa gratuito, tedioso, logo antecipará os rumos da trama, e nos ajudará a entender o porquê de Margot Robbie surgir tão angelical (nada sexualizada, repare) na trama: é o Tarantino de Bastardos Inglórios e Django Livre empenhado em, mais uma vez, compensar crimes históricos. E em prestar um tributo à memória da jovem atriz brutalmente assassinada pelo grupo de Charles Manson.

Se o célebre serial killer é encenado como uma sombra, quase invisível, mas um espectro que é ameaça constante ao ideal de sucesso não só de Hollywood, como de toda a sociedade norte-americana, os personagens de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt e a relação ambígua entre eles são o que melhor comunicam a confusão de Tarantino quanto aos princípios que se contrapunham nos anos 60. O diretor e roteirista realiza isso imaginando como esse ponto de inflexão pode ter sido doloroso para os profissionais de cinema da Era de Ouro. Aqui seu olhar se assemelha ao de Billy Wylder para Norma Desmond (Gloria Swanson) em Crepúsculo dos Deuses. Assim, seu julgamento se torna complexo, afetivo, humano.

Rick Dalton (DiCaprio) é, desde o princípio, mera caricatura de si mesmo. O arquétipo do astro em declínio; um bêbado incapaz de decorar suas falas. A visão de Tarantino sobre seu protagonista é do ridículo, como lhe cabe. Pouco a pouco, o texto desvela um Rick mais consciente. De certa forma, um doente, um alcoólatra, que se rende à ruína iminente. E o que surgira como um personagem tolo, patético, se engrandece. Sua constatação do fracasso é tão legítima quanto seu drama, a austeridade do sistema e seu autoproclamado talento, que é incrível! O clímax desse crescente de empatia em relação ao protagonista é encenado como um filme dentro do filme: cena longa, Rick erra, "Corta!", a produção sopra a fala, a câmera volta, contorna a mesa em travelling, o ator com que contracena se irrita, refaz a cena, a contragosto, sua atuação piora, Rick dá conta, o plano-sequência termina, mas ele não se contenta. Sua redenção nos minutos seguintes encerra um dos melhores momentos da carreira de Leonardo DiCaprio e uma das peças dramáticas mais delicadas e bem filmadas por Quentin Tarantino. Coisa linda, mesmo!

Cliff Booth (Pitt) se confunde com Rick Dalton até nos trajes que vestem (note como um surge no dia a dia com o figurino usado pelo outro na ficção). Mas o dublê é pior que um fracassado; é um feminicida! A indústria o despreza. Rick é sua última ligação com a glória. Sua boia salva-vidas em Hollywood. Cliff, em contrapartida, é o apoio emocional de Rick. Seu faz-tudo. A troco de quase nada. O homem público forte explora e ajuda o homem público nulo. E este anônimo, comparado ao próprio cachorro nas primeiras cenas e apontado como um assassino em seguida, vai ganhando camadas. Em demonstrar uma louvável preocupação ética com a idade de Pusssycat. Ao aceitar um duelo com o falastrão — e impagável — Bruce Lee (Mike Moh), e ganhar! Em uma sequência cheia de suspense no Rancho Spahn, que se transforma em um grande curta de neowestern e em que Cliff Booth vira um verdadeiro herói de faroeste. E já no fim, quando seu alterego épico entra em ação novamente, ele salva o dia, e, como um bom dublê, sai de cena enquanto Rick colhe os louros de sua glória e coragem.

É passada apenas meia hora de filme quando Cliff avista Pussycat e a clássica "Mrs. Robinson" de Simon e Garfunkel invade a trilha a sonora. Sorrio ao perceber a homenagem a A Primeira Noite de um Homem (nos cinemas quando dos eventos de Era Uma Vez Em... e influente para a Nova Hollywood, "iniciada" dois anos depois) e me intriga o fato de a diferença de idade entre os personagens de Brad Pitt e Margaret Qualley ser semelhante, porém inversa à de Anne Bancroft e Dustin Hoffman no filme de Mike Nichols. Ao fim, meu sentimento é de que essa subversão não é involuntária, pois regra em todo o filme. Coerente com a lógica contraditória do astro e do dublê terem os papéis trocados na vida real (em que o ídolo se torna um pária para si mesmo e o marginal sai por aí bancando o herói), e todas as nuances que se aprofundam neles ao longo da projeção. E com o fato de o bromance entre os dois ser genuíno, porém haver antes da amizade uma clara relação de exploração por um lado e interesse do outro. Ou seja: está tudo errado, ao inverso, mas tudo se ajeita no fim. Assim como para a beldade angelical, massacrada por psicopatas na vida real e que, na ficção, será feliz no final.

Enquanto Bastardos Inglórios e Django Livre funcionam como grande catarse histórica banhada a sangue e vingança (em certa medida, Kill Bill, À Prova de Morte e Os Oito Odiados também), Quentin Tarantino constrói Era Uma Vez Em... Hollywood — apesar de todos os pesares — como uma obra surpreendentemente conciliatória e otimista. Em última análise, uma crônica muito delicada e sensível. Não apenas em relação ao cinema. Com um olhar ambiguamente político, Tarantino constrói um universo em que nada e ninguém é todo bom e todo mau, e em que o todo é maravilhoso. Sua lente é aproximada e também honesta a respeito dos conflitos e paixões que movem Hollywood, seus clássicos, seus ícones, suas relações de trabalho, seus vínculos interpessoais, todo seu deslumbre, o mundo ao redor e todas as violências que ali ocorrem. Porém, perceba: há um limite para a tragédia: agredir o encanto de sua imaginação. Onde a morte é bela e moral, é plástica, não pode ser trágica. Era Uma Vez Em... Hollywood é o mundo ideal de Quentin Tarantino. Errático e mágico. Um filme em que todo cinéfilo gostaria de morar.

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