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Críticas

Cineplayers

Pesadelo à brasileira.

6,0

O dia é noite e o foco vacila. A câmera oscila em seu eixo, trêmula. Uma espécie de zumbido emoldura a cena, um som lancinante. Como um fade in, a imagem encontra alguém, sem desembaçar por completo. Também gradualmente, ouvimos gritos diegéticos de uma manifestação. De longe, desequilibrada, a lente encena um momento, um cenário e uma personagem bem conhecidos da história recente do país: o dia em que Dilma Rousseff desceu a rampa do Planalto para receber flores e abraços de mulheres em pleno processo de seu impedimento como Presidenta da República do Brasil. Para muitos, o fim de um sonho. Douglas Duarte filma a abertura como um pesadelo.

Nas palavras do próprio diretor e roteirista de Excelentíssimos, “pesadelo” é uma síntese da crise política que assola o país desde então, e, por isso, o termo teria sido adotado como palavra-chave que guiou o projeto. Condizente, o conceito define perfeitamente a situação em que Dilma se viu desde que a oposição de seu governo decidiu impichá-la, sendo submetida a trâmites institucionais fadados a condená-la a despeito de haver ou não provas de que a Chefe de Estado fora responsável pelo crime de responsabilidade fiscal que serviu como base de sua deposição. “O processo é jurídico e político”, diz Carlos Marun, um ex-aliado filiado ao MDB que atuou na articulação do impeachment, admitindo (mais uma vez) a fragilidade do substrato criminal utilizado pelos julgadores do caso — atuantes lado a lado com a parte acusadora.

Portanto, o pesadelo de Dilma Rousseff não foi muito diferente daquele vivido por Josef K. na obra-prima literária O Processo, de Franz Kafka. Formalmente, no entanto, o primeiro indício de que essa sensação de aprisionamento conduziria o documentário tão criativamente fica na introdução. Dali em diante, Douglas Duarte e sua equipe se limitam a montar logicamente essa noção de aprisionamento institucional com imagens de arquivo e filmagens originais — estas, infelizmente, pouco enriquecedoras do que já fora divulgado publicamente ou numa comparação com outro produto artístico intitulado O Processo: o documentário de Maria Augusta Ramos sobre o mesmo tema, lançado há menos de 6 meses.

No caso, Excelentíssimos não perde em relevância devido à proximidade de estreia com O Processo. O filme de Douglas Duarte aborda um momento anterior, inclusive retornando para a gênese do processo, em 2014, quando o concorrente à Presidência da República Aécio Neves e seu partido, o PSDB, iniciaram uma série de jogadas retóricas, midiáticas, políticas e legais para impugnar a vitória de Dilma Rousseff. Assim, o cineasta também adota como protagonistas as figuras opositoras do governo vigente, assim compondo um bom complemento com o longa-metragem de seu, digamos, coirmão cinematográfico.

O problema patente de Excelentíssimos é um excesso de registro em contraponto com uma falta de encenação. Enquanto Maria Augusta Ramos cria uma narrativa envolvente, com personagens definidos, uma estrutura bem modulada, momentos de tensão e humor, vários clímax, Douglas Duarte fica aquém em todos esses aspectos. Entre sequências dilatadas sem justificativa de função e entrevistas formais (com perguntas feitas com péssima captação de som) que pouco acrescentam, a narrativa soa disforme, por vezes truncada. Há no deputado Silvio Costa um esboço de antagonismo à posição de Carlos Marun, ou Bruno Araújo, ou qualquer outro membro de oposição, mas o fato é que Excelentíssimos nunca apresenta a habilidade dos grandes documentários de construir uma trama enriquecida por bons personagens, como se fossem de ficção.

Excelentíssimos se alicerça, assim, na importância e na complexidade do episódio que reconstitui. Como um registro documental e histórico fundamental, haja vista seu minucioso trabalho de resgate cronológico dos fatos que culminaram na deposição da presidenta Dilma Rousseff e na inequívoca capacidade do documentário de defender a tese de que houve uma conspiração para tomada do poder no Brasil em 2016 — inclusive pela demonstração da completa (i)moralidade dos artífices do golpe. Sem a necessidade de narrações manipulativas, com um sem número de declarações e imagens que conduzem o espectador rumo à sua própria conclusão. Até por esse motivo, Douglas Duarte e equipe poderiam ter evitado a tentação banal dos filmes sobre personagens reais de contextualizar a obra com os desfechos das figuras envolvidas no processo, o que provoca a inserção de dados já defasados em um documentário que ainda nem chegou ao circuito comercial. Um deslize que Maria Augusta Ramos não comete em seu exemplar recente e não condiz com a excelência do material jornalístico colhido e apresentado no longa-metragem. 

Filme visto no Festival de Cinema do Rio de Janeiro

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