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Glória Feita de Sangue

(Paths of Glory, 1957)
8,6
Média
502 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A guerra, por dentro e por fora

10,0

Muito recordado recentemente por conta do sucesso do 1917 (idem, 2019) de Sam Mendes, Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957) não precisa ser usado como baliza para ter um lugar destacado dentro da filmografia de Stanley Kubrick. Primeira incursão no que talvez tenha sido o único gênero que sua carreira revisou, passeia por esse fato o pensamento de que os conflitos (bélicos ou não) têm causa e consequência, morais e psicológicas, e que talvez seja norteado por essa bússola que o cineasta mais comumente comungou. A gênese de um conflito, a apresentação do mesmo, os atos provenientes dele e suas consequências. 

Posteriormente o diretor jogaria acidez em sua crítica às instituições beneficiárias de conflitos armados (Dr. Fantástico, 1964) e aprofundaria os relevos dos consequências físicas e psicológicas da guerra (Nascido para Matar, 1987), mas nesse primeiro momento o quadro pintado já tinha essas tintas em diversas camadas. Procurando observar a ação direta tanto no âmbito prático quanto no teórico, Kubrick não se limita a um recorte específico do campo de batalha, mas literalmente o retira do front e o reencena em corte marcial. De maneira muito sucinta porém com aspecto abrangente, em sua curta duração, Glória Feita de Sangue consegue interpretar inúmeros lados de uma mesma questão. 

Como se tivesse nos acostumando a encarar uma lupa em todo aquele ambiente num futuro breve, o diretor prepara um terreno que parece a princípio simples e confortável — como seria não fosse esse cineasta Stanley Kubrick. Nada é simples a cada nova curva, quando o filme se explicita passagem a passagem, tornando o discurso antiguerra cada vez mais centralizado. Acima de tudo, há uma empatia do roteiro não apenas com aqueles soldados julgados e suas situações estapafúrdias e recorrentes. O próprio desfecho do filme traduz toda sua narrativa indo de um polo a outro em questão de poucos minutos, livrando um ambiente hostil de sua balbúrdia para amansar para os envolvidos, e amargar para o espectador sobre o moto-perpétuo de sofrimento do qual uma guerra não abre mão. 

A própria postura do protagonista vivido por Kirk Douglas busca a ambiguidade de relações, que era até um artifício que buscavam no ator. Há ênfase em cada decisão sua, mas em todas elas também se encontra uma intenção particularizada e oculta em suas ações. Emulando os diferentes pontos de vista acerca do material que evoca, o personagem de Kirk se desenvolve como alguém que tenta antecipar os movimentos alheios para "ganhar o debate" não à toa ele está no lugar de defesa de pessoas que representam um regimento. O filme caminha dando a ele uma voz mais percebida pelo público que pela narrativa, até enfim ser escutado, para mais uma vez subverter o que se espera dele e revelar em si sua porção máxima como advogado paladino, em uma dos grandes momentos de sua carreira e um ápice em Glória Feita de Sangue. 

Stanley Kubrick nunca precisou criar paralelismo com qualquer outra filmografia ou artista para se firmar, mas, em um tempo em que as qualidades de uma obra se tornaram ainda mais realçadas quando colocada ao lado de outras, foi ele quem criou uma espécie de padrão de qualidade ao senso comum. Os filmes de terror precisam ser melhores que O Iluminado (The Shining, 1980), as ficções científicas precisam ser melhores que 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968), os dramas de época precisam ser melhores que Barry Lyndon (Idem, 1975), as sátiras precisam ser melhores que Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964)  ou ao menos é o que esperam as redes sociais. Kubrick se tornou uma régua, por ser tão único e tão versátil em seu ofício.

Mesmo que a guerra voltasse tantas vezes a se apresentar em sua obra, direta ou indiretamente, cada representação do tema é única e intransferível. Essa produção de 1957 aborda diretamente o lado desumano do conflito através dos planos superiores de poder, onde as decisões são tomadas às cartas inferiores, cabe obedecer regras ancestrais até que um olhar rebelde insurja ao pré-estabelecido, que cabe a Kirk Douglas representar. Por meio dos meios cabíveis, ele tenta reinventar a ordem das coisas e desnaturalizar injustiças e desmandos. 

Se narrativamente Kubrick realiza um portento de estrutura dramática, imageticamente ao menos dois momentos clássicos de sua vasta galeria ultrapassam os limites de sua filmografia. Se a marcha nos condenados a seu destino representa o terror de um conflito armado poucas vezes alcançado em dor e injustiça, a cena final já citada, onde soldados em ensandecida demonstração de preconceito se desarma e desaba diante à delicadeza, é um momento crucial do cinema na cruzada antiguerra; sem panfleto ou clichê, apenas um aceno implacável a empatia. O lugar do outro é sempre um lugar para onde devemos olhar.

Texto integrante do especial Baú dos Clássicos

Comentários (1)

Igor Guimarães | quarta-feira, 06 de Maio de 2020 - 09:33

Gostei demais desse pêndulo entre as obras anteriores do Kubric junto dos temas que elas trazem fincando na figura do personagem do Douglas, que vai explodir esse movimento em várias direções.
Muito bom o texto, Francisco!

Francisco Carbone | terça-feira, 19 de Maio de 2020 - 02:17

Obrigado, Igor. Deu muito prazer escrever o texto.

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