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Golpistas, As

(Hustlers, 2019)
6,9
Média
11 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Escapismo feminino com uma colherada de Jennifer Lopez

8,0

A primeira vista, quem poderia imaginar que As Golpistas fosse um filme que trata de sobreviventes mediante a crise econômica americana que começou há 10 anos, mais precisamente uma história que acompanharia esse processo diante de tantos dos causadores do mesmo: homens de negócio, especuladores, lobistas que afundaram os EUA, foram inteligentemente engrupidos e são retratados aqui, criando uma catarse instantânea no público e também uma identificação imediata com as mulheres? A diretora Lorene Scafaria tinha em mãos uma história real que deu o que falar quando descoberta, e transformou esse novelo em uma versão moderna de Norma Rae e Erin Brockovich, conclamando um elenco majoritariamente feminino para um blockbuster refinado, quem diria.

Por trás do ambiente dos inferninhos que retrata, se esconde um roteiro envolvente escrito pela própria Lorene e baseado num artigo publicado pela New York Magazine em 2016 pela jornalista Jessica Pressler. A tal matéria investigativa tentava dar conta da descoberta de um esquema de golpes aplicados por strippers em grandes figurões de Wall Street, de onde tinham conseguido arrecadar fortunas com "pouquíssimo" esforço. O filme se insere na realidade dessas mulheres, que faziam parte da fatia americana que perdeu tudo com a crise econômica. Para conseguir sair da situação lastimável que varreu o país (e o mundo, consequentemente), elas se uniram para cobrar justamente dos caras responsáveis por tanto do prejuízo que elas também pagaram.

Abrindo mão de uma linguagem rebuscada que poderia colocá-lo no lugar de um A Grande Aposta, o filme herda do longa de Adam McKay (não a toa um dos produtores de As Golpistas) apenas a 'crônica de uma tragédia anunciada' através da parte inferior da pirâmide, a menos abastada classe econômica. Apesar dos momentos genuinamente tocantes, o que prevalece na produção é um bom humor impagável em diálogos muito bem lapidados, ditos por um elenco com química sobressalente. Através de relevos de suas duas personagens centrais, o filme parte a radiografar um grupo de mulheres que sobrevive graças à sororidade que os tempos dificeis dão, ainda que esse grupo seja mais lido de maneira coletiva que individual.

O longa tem um trabalho superlativo do fotógrafo Todd Benhazl e da montadora Kayla Emter, que criaram não apenas desenho de luz que dá o tom dramático da produção e seu ritmo ofegante e frenético, mas justamente criaram junto a Lorene todo o referencial imagético do filme, que o afasta da similaridade que poderiam o atribuir a Magic Mike, sendo não apenas diferente do longa de Steven Sorderbergh como superior, além de ter suas particularidades; durante sua primeira hora, As Golpistas é tecnicamente impecável, criando planos como a da chegada de Usher à boate e o contraste entre as duas cenas de 'pole dance' de JLo, como dois lados de uma mesma apoteose, em execução e, posteriormente, criação.

Independente do belo e eficiente corpo de elenco, o roteiro se debruça mais sobre as personagens de Constance Wu e Jennifer Lopez. Enquanto a primeira segura o esteio narrativo da produção, dando unidade aos eventos e sobrevivendo ao holofote humano a seu lado com imenso carisma e segurança, Lopez cega o público com cada aparição sua. Desde sua primeira cena, uma das mais estonteantes entradas de um personagem no cinema recente, indo até o primeiro encontro com Wu onde o carinho entre ambas já é estabelecido, passeando por todo o filme, é quase prejudicial à produção quando Lopez está em cena, porque não há como olhar para qualquer outro elemento diante dela; Lopez nunca esteve tão exuberante como atriz, numa interpretação repleta de nuances do início ao fim e que deve levá-la à merecidas indicações na temporada.

Ao lado de Lopez, é palpável a intenção de Lorene em produzir diversão escapista da melhor cepa, empoderando um grupo de profissionais marginalizado ao mesmo tempo em que tenta construir um blockbuster sofisticado sem subestimar seu público. Ainda que falte ao filme um lugar mais amplo para uma gama tão grande de personagens, é impossível ficar indiferente à explosão de energia que promove ao colocar no centro da narrativa mulheres por tantas vezes inferiorizadas, e que aqui tem rara chance de amplificar sua própria voz.

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