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Greta

(Greta, 2019)
7,3
Média
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Críticas

Cineplayers

Somos todos sublimes

9,5

A homossexualidade não é um tema novo no cinema, mas vem sendo colocado cada vez mais em voga de anos para cá. Histórias de amor entre pessoas do mesmo sexo, relações afetivas envolvendo diversidade de gênero e personagens do núcleo LGBTQI+ tem sido uma feliz constante nas produções, deixando claro o mundo cada vez mais diverso de orientações. Ainda assim, parecem que mesmo as grandes produções repletas de inúmeras qualidades acabam caindo num espaço hegemônico da juventude e da beleza, explorando lugares que vendem, ainda que de maneira em inúmeros lugares de fala diferentes, um recorte. Brokeback Mountain, Me Chame pelo seu Nome, Carol, Moonlight, Corpo Elétrico, Tinta Bruta, Tatuagem e tantos outras produções que abordam o tema de maneira restrita, ainda que a qualidade cinematográfica esteja intacta.

Existe em Greta uma aproximação junto à outras categorias de marginalização, que diferem da imposição do belo e da saúde; por mais que haja compartimentos nesses possíveis retratos da homossexualidade através dos filmes supracitados anteriormente, o naturalismo aqui vai ainda mais fundo. O protagonista Pedro não tem o corpo de um jovem apolíneo, mas o de um Marco Nanini no lumiar do sublime, em despudor emocional e físico. O diretor Armando Praça procura uma radiografia dificilmente explorada porque o cinema se pretende uma arte sedutora para o público jovem, mesmo o que está em lugar de nicho. Observar o corpo nu de Nanini hoje vai além do ato de resistência, ele representa mais um passo no caminho de ressignificar belezas e representações; porque um homem de 70 anos absurdamente normal não é bonito? Não estará na hora de partirmos a reconfigurar o conceito imagético aceito e padronizado?

Outro dado que 'Greta' tenta desmistificar é um estado de espírito. Pedro e sua irmã trans Daniela não apenas estão em outra faixa etária, eles têm uma tristeza inerente ao que o cinema americano tenta incutir enquanto padrão de qualidade de vida. "Seja feliz!", parecem obedecer a esse lema o sem número de projetos incluindo veteranos atores produzidos nas últimas décadas na produção comercial. Pois a família do filme de Praça não é desfuncional para gerar gracejos, mas para provocar uma reflexão sobre o mito da felicidade, sempre buscada e raramente alcançada. Quando Pedro é questionado por sua irmã na ideia de tentar bancar uma história de amor complexa, ele responde "eu só tenho essa história, meu amor", que demarca sua coragem ante às possibilidades, na seara do ínfimo. Não há uma amargura de aceitação, mas o reconhecimento de suas limitações. A felicidade não precisa estar no lugar oriundo de uma edulcoração inatingível obrigatória, mas sim pode ser desenhada com o anexo de espinhos. 

O filme também joga em seu roteiro com códigos da contradição de seus personagens, sem julgá-los e reverberando essa ressignificação do que se entende por prazer e felicidade. Meire acompanha o corpo do marido morto em estado de luto, mas na verdade deseja seu assassino. Daniela aceita seu destino sem compadecimento e com energia decisória, mas isso não a impede de querer estar em seu apogeu como artista. Jean precisa encontrar um caminho para a situação onde está e não aceita as opções que tem, mas cede diante do maior contato que já teve com os mais profundos sentimentos. Por fim, Pedro é a síntese dessa análise; condenado a repetir o bordão de sua musa Greta Garbo em querer estar só, o enfermeiro não tem qualquer talento para a solidão e busca o contato humano a qualquer preço. Nesse lugar, o filme se encontra com o Um Estranho no Lago, de Alain Guiraudie, onde a beleza e a juventude também lá se encontram com a finitude e com aceitação do que nos cabe como uma espécie de predestinação. 

A luz de Ivo Lopes Araújo é, mais uma vez, vetor de sentimentos ambíguos, em produzir e capturar o extraordinário, em observar a insidiosidade dos feixes de iluminação sobre corpos não-endeusados e/ou carentes de fetichização, ao mesmo tempo em que produz momentos de arrebatamento estético como as duas cenas de encontros e diálogos ao amanhecer, e o último plano do filme, um dos raros movimentados, onde Nanini explode em crescimento gradual na tela. Ali, talvez seja o grande momento dele, de Praça e de Ivo, um trio reunido para a criação de um personagem que, de tão único em nossa cinematografia, só podia nascer histórico mesmo. Ainda que os trabalhos de Denise Weinberg (esplêndida em todo o processo, mas com uma cena-chave que homenageia seu talento subestimado e também o de Elba Ramalho) e Demick Lopes (em ano sem igual, aqui e em Inferninho, em momentos superiores do cinema nacional em 2019), é no rosto indelével de Marco Nanini que terminaremos enfeitiçados da sala grande, um retrato da poesia que ainda nos cabe em qualquer momento da vida. Uma carta de amor sobre ainda ter esperança por mais ordinários que sejamos.

* Visto no 29º Cine Ceará, 2019

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