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Halloween 2 - O Pesadelo Continua

(Halloween II, 1981)
6,4
Média
124 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Violência musculatória na constituição dum subgênero de crua matança.

8,0

Continuação direta do sucesso instantâneo que se verificou no primeiro material Halloween – Noite de Terror (Halloween, 1978), pelo mestre John Carpenter. Agora dirigido pela figura a qual atendia pela alcunha de Rick Rosenthal, esta nova substância sai exatamente no crescente do cinema-slasher, que fora influenciado diretamente pelo precursor de 1978. Naquele, o foco era mais voltado à construção duma malevolência absoluta através do suspense via câmera e perspectiva como algo primordial e insubstituível. Agora, com o bichoso já conhecido, a intenção é a ação e o terror propriamente ditos. Troço mais brutal e frontal.

Selvajaria num ritmo mais acelerado. Já não há a necessidade da apresentação dos 3 personagens principais, então o interesse tornar-se-ia a matança. Isto também abarca a obrigação mercadológica do prosseguimento pedido, e este chegaria, elevaria e instilaria elementos slasher, que já haviam surgido no seu predecessor. A escolha mais óbvia ao seu alcance foi pela ação. E esta preferência vai se restringir, escrotalmente, ao hospital. Ou seja, a fita-sucursal é minutos depois do pregresso original. Ora, Michael não papocou por meio dos seis tiros, então onde está esse animal imundo? O frenesi avacalhacionista. Aqui já há certa histeria narrativa e escolhas que fogem da sobriedade. Isso é joia. O monstro instalara o caos e todos o perseguem. Com direito a um Michael-cover atropelado enquanto um psiquiatra Loomis querendo atirar no meio da rua. A loucura toma conta após a putaria precedente, somada às novas mortes com o psicopata à solta. São as decorrências tomando forma nas ações estapafúrdias. A confusão das instituições.

Eliminação dos incautos, vilão foda e trilha sonora excepcional, de Carpenter em associação com Alan Howarth, explodindo em vários momentos criando tensão. Agora os jumpscares são na lapada. Consequenciais com, ainda, mínima emulação duma questão de perspectiva tão cara no anterior. O assassinato na banheira é contumaz nesta questão. Enquanto o boy magia vai verificar a temperatura da água, sua companheira fica alisando seu próprio corpo e esperando. O foco está exatamente nela, enquanto por trás, a besta-fera trucida o garotão. Na profundidade de campo.  São escolhas que tentam manter alguma personalidade do longa preliminar, mas com certo tesão em aloprar no volume do desmantelamento. Junção destes elementos.

Num certo momento, temos singular e exímio exercício de câmera, quando ela passeia pela cidade unindo as perambulações das ambulâncias em desespero e carros policiais em polvorosa - e seus sons característicos - às casualidades novas ao se aproximar de duas mulheres tranquilas conversando sobre futilidades. A vida que segue para as futuras próximas padecentes. A continuação. Os pontos de vista se espalham entre vários personagens a adentrarem no jogo morticinioso capitaneado pelo anômalo Myers. E porque os caminhos convergem para um, marotamente apagado, hospital? Além da obviedade de situação continuada, dá-se a oportunidade de crescer o medo num local sacralizado por cura e morte. Local caro ao terror, que acaba por gerar espaço para destruição tácita. Um local público que conhecemos seu bosquejo geral, mas aqui temos ideia daquilo a encontrar no próximo corredor? Claro que temos.

O esquema dos sustos é sintomaticamente simples na sua massacrante maioria. O interesse mora na, já citada, frontalidade narrativa horrorífica. Inicialmente, as lentes brincam com alguns planos e situações e, a posteriori, servem como testemunha do destroço perpetrado. Mostra as vítimas sendo duramente vilipendiadas, dando a entender que a conveniência da violência importa mais ao slasher em crescimento que a construção de set pieces dentro dum contexto a procurar por ruindade maior. Sai a persona atmosférica onipotente e entra o bruto indestrutível. Antes uma busca por um mal eternamente presente era a questão, mesmo que ainda focado num humanóide, agora o lance é personificar o mito através da violência. E isto não é necessariamente ruim. Faz parte da esperteza de mercado destes slashers. Quanto mais mortes melhor. E quando isso vem aliado a um produto qualitativo sentimos a corporatura. Para mais detalhes do subgênero, há ótimo artigo do site Era uma vez... O Slasher, que adentra nos supracitados elementos debatidos e de tantos outros. Bem serve como genealogia significativa de exposição deste cinema.

O invocado é que o filme mais citado como influência seria o Halloween inicial, porém é perfeitamente no segundo que alguns elementos corriqueiramente clássicos se consolidam. O despedaçador indestrutível, as mortes a rodo, o sexo – ou o preparo do próprio –  seguido de assassínio, e por aí vai. Se o antecedente prepara o terreno, este segundo é prova viva da consolidação daquele tipo de obra, com suas idiossincrasias mais identificáveis e viciadas. A gestação dos Jasons, Maniac Cops e tantos outros é proveniente daqui. Inclusive o caráter frio característico do figurão em seu desprezo para com os sofredores. Mortes secas. Usando, naturalmente, os vastos corredores do hospital. Espécie de instalação do método Myers destroçador. O psicopata Imortal de movimentos lentos, causa uma inicial sensação de descrédito (falso) na falta de urgência por conta da citada lentidão, mas, logo em seguida o desgraçado já marca controle e barbaridade. Assume-se aqui mais uma fuga da realidade. Uma fuga programada. Mas é óbvio, ora porra. Se o animal é indestrutível, porque não podemos aceitar seu teletransporte? A funcionalidade é pela tensão desenvolvida. O filão cresceria absurdamente em seguida.

Preocupado em ser uma prossecução mais grossa, a fita investe na contagem dos corpos com razoável dose de crueldade – mesmo que aquém, neste quesito especificamente, a outros primos escrotinhos da época tais quais O Maníaco (Maniac, 1980), Chamas da Morte (The Burning, 1981) e Dia dos Namorados Macabro (My Blood Valentine’s Day, 1981) – tentando dar um suporte visual minimamente trabalhado ao invés do morticínio chibateador vindouro nos anos posteriores, tanto das suas sequências quanto em obras outras. E isso também não é de todo mal. Estraçalhamento sempre tem um lado lúdico. Mas ao nosso objeto falta-lhe tamanho e audácia. Vincula a força de seu vilão ao mal, mas não se sobressai neste mal absoluto que quer preconizar. Acaba por deixar o filme desconjuntado aqui e ali. Com ameaça conhecida, mas como um esboço daquilo que poderia ser. Falta truculência. Visa ser macabroso sem tanto o ser de fato. Ao final, até manja isso na boa sacada dos olhos sangrando e no fogo infernal. Laurie Strode, por exemplo, tem interessante background continuado e explorado na solidão pelo escopo das escolhas narrativas e de câmera, pondo-a em corredores num bom paralelismo de caça e caçador, mas acaba por virar uma final girl sem carisma algum. Só choraminga. Nem para gritar direito serve. Pelo menos é substituída por um Loomis muito doido assumindo uma verve suicida no resolver das questões. A escolha de expor mais o anormal mascarado era algo tácito, já que conhecido está. Assim como a contagem dos defuntos elevada passa um tom gratuito que só se justificaria com sanguinolência mais exacerbada.

É fruto de uma época e tem uma preponderância mais alta do que os fãs alucinados da primeira fita gostariam de assumir. Se naquele de 78 há o cérebro, coração e esqueleto do subgênero, neste há a musculatura gerando a ação que se seguiria adiante. Para a desgraça e para o que é decente. Não interessa. Influência é influência. Por isso este material, mesmo com a incertezas e inseguranças, é de intrínseco valor.

Comentários (2)

Rodrigo Calhelha Junior | sexta-feira, 22 de Maio de 2020 - 19:26

Bom texto, é isso aí. Eu curto bastante esse aqui, acho extremamente funcional enquanto slasher e me traz lembranças pontuais da minha infância.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 22 de Maio de 2020 - 20:53

Beleza demais. Fala-se demais da influência do original, que é foda, mas este aqui abarca o uso de várias características conhecidas do subgênero.

●•● Yves Lacoste ●•● | sábado, 23 de Maio de 2020 - 04:52

Uma sequência digna do meu slasher favorito, apesar da falhinha estranha do roteiro em vermos Myers pintando o sete num hospital meio que vazio. Com as mortes ocorridas na cidade horas anteriores, o hospital deveria estar no mínimo cheio de seguranças e policiais.

Ted Rafael Araujo Nogueira | domingo, 24 de Maio de 2020 - 00:25

O filme ainda mostra a ação lá fora com a polícia atrás do Michael, mas deixar o hospital sem ninguém, é bem oportuno.

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