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Críticas

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Quando Psicose foi melhor que Hitchcock.

5,0

1959. Alfred Hitchcock acabava de lançar seu mais novo trabalho: Intriga Internacional (North by Northwest, 1959). Assim como seus projetos imediatamente anteriores - Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1954), O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, 1955), O Terceiro Tiro (Trouble With Harry, 1955) e Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958), todos produzidos pela Paramount, este mais recente, lançado pela MGM, era outro arraso nas bilheterias. Esse perfeito equilíbrio entre qualidade artística e sucesso comercial, fazia do famoso diretor inglês uma espécie de Rei na Hollywood dos anos 50, capaz de arrancar dos estúdios generosos orçamentos e o tão disputado direito ao corte final.

Hitchcock era tão poderoso, que anos antes, em outubro de 1955, a rede de televisão CBS concordara em lhe pagar U$29 mil por episódio para que ele emprestasse seu nome e sua inconfundível silhueta à série Alfred Hitchcock Presents. Apesar da sua participação se limitar à leitura do texto de introdução e do epílogo de cada capítulo, sua imagem já provocava um considerável aumento nos índices gerais de audiência do programa. Ironicamente, todo esse sucesso e dinheiro trazia a Hitchcock um certa sensação de aprisionamento. De um lado, ele achava que a superexposição trazida pela televisão o banalizava. De outro, a imediata associação de seu nome a um tipo específico de cinema trazia implicitamente o risco do diretor virar um gênero de si mesmo. Hitch precisava sacudir a poeira e reinventar sua carreira. A resposta veio no obscuro livro escrito por um certo e despretensioso Robert Bloch, chamado Psycho.

O romance de ficção tomava por base a história real acontecida em novembro de 1957, quando Ed Gein, um dos anônimos moradores da pequena e monótona cidade de Plainfield, no estado de Wisconsin, foi identificado como um dos mais perigosos assassinos em série dos Estados Unidos, responsável por atos que, segundo os jornais da época, variavam entre roubo de cadáveres, travestismo, incesto e até canibalismo (30 anos depois, Gein serviria de base para o personagem de Buffalo Bill, o serial-killer criado por Thomas Harris, em O Silêncio dos Inocentes [The Silence of the Lambs, 1991]). Tamanhas atrocidades estavam a anos luz do tipo de material que interessava a Hitchcock, que se mostrava mais à vontade em tramas sofisticadas e cenários mais classudos.  No entanto, foram exatamente estes aspectos que o atraíram para o projeto. Em especial um deles: o assassinato da heroína logo nos primeiros 40 minutos da narrativa. É possível afirmar que Hitchcock decidiu fazer do livro de Bloch seu filme seguinte apenas por causa dessa cena. Ele sabia que o público da época, acostumado a épicos religiosos e a dramalhões xaroposos, não estaria preparado para tanta crueldade. Nascia ali Psicose, um dos trabalhos mais famosos da carreira do diretor e um dos maiores clássicos do cinema.

Hitchcock, o filme de Sacha Gervasi, ao contrário do que o seu título sugere, não pretende ser uma cinebiografia da vida do diretor. Antes disso, sua proposta é retratar exatamente os bastidores das filmagens de Psicose. Para tanto, baseia-se na obra-reportagem de Stephen Rebello, intitulada Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, e lançada originalmente nos EUA em 1990. Espécie de combinação de A Sangue Frio, de Truman Capote, e Filme, de Lilian Ross, o livre de Rebello impressiona pela extensa pesquisa, que vai desde os fatos precedentes ao filme propriamente dito (os assassinatos de Ed Gein e o romance de Bloch), passa pela pré-produção (que aborda as diversas versões de roteiro, a escolha do elenco, e aos demais elementos fílmicos, como  a direção de arte, os figurinos e maquiagem), pela produção (dedicando-se exaustivamente sobre a cena do chuveiro) e pós-produção (lançamentos, problemas com a censura etc.). Com tanto material de retaguarda assim, surpreende como o roteiro de Hitchcock (o filme) não apenas é superficial em relação a seu tema principal, mas também – o que é bem pior – altera a verdade de alguns fatos que compromete gravemente o resultado final.

A principal diferença entre Hitchcock e a obra da qual ele se origina, é a participação de Alma Reville, esposa do diretor. No livro, ela aparece em momentos isolados da narrativa e sempre numa função secundária. Tanto assim que nas poucas vezes que seu nome é citado, Rebello, como que se sentindo na obrigação de lembrar o leitor de quem ele está falando, sempre faz referência à sua condição marital com o grande mestre. Se a adaptação para o cinema fosse fiel à reportagem de Rebello, Alma seria um personagem coadjuvante, se tanto.

No entanto, o roteiro de Hitchcock, de autoria de John McLaughlin, eleva Alma ao status de protagonista da trama, tão importante quanto o biografado. Veja-se que esse não seria um defeito dos mais graves se a proposta do roteiro fosse fazer jus a esta figura que, mesmo anônima do grande público, foi, de fato, uma colaborada fundamental na carreira de Hitchcock. O problema está nas perigosas liberdades do script em relação à verdade dos fatos. No filme, Alma, ainda uma mulher desejável e cansada das obsessões do seu marido pelas loiras gélidas que estrelavam seus filmes, quase se deixa envolver em um romance adúltero com o escritor e roteirista Whitfield Cook (Danny Huston), um personagem que sequer existe no livro. Essa potencial traição dita o rumo do filme as motivações de todos os seus personagens, algo no mínimo questionável, já que nem sabemos se esses fatos ocorreram na vida real.

Assim, de acordo com a premissa adotada pelo filme, o Hitchcock que estava no set de filmagem para criar umas das mais famosas cenas  da história do cinema (para muitos, tão ou mais influente que a sequência da escadaria de Odessa, em O Encouraçado Potenkim (Bronenosets Potyomkin, 1925), de Eisenstein), era um diretor corroído pela dúvida de estar sendo traído pela esposa. Pior ainda, para Gervasi e McLaughlin, a eficácia da cena seria decorrente do realismo com que Hitchcock – com a imagem do amante de Alma em mente – teria mostrado aos seus atores e dublês, o modo como as facadas deveriam ser desferidas no corpo de Janet Leigh. É evidente que esse ponto de partida é dos mais tolos possíveis. A cena do chuveiro não é fruto de um marido ciumento, mas sim de minucioso e prévio planejamento técnico e do talento de um dos maiores cineastas do Século XX.

Outra opção duvidosa do roteiro são as conversas mediúnicas entre Hitchcock e Ed Gein, o assassino em série que servira de inspiração para o personagem de Norman Bates. Estas sequências, obviamente inexistentes no livro de Stephen Rebello, não apenas fazem com o que filme perca o foco dos bastidores de Psicose, mas também sugerem que o diretor, que já desconfiava que da traição da esposa, passou a compreender e aceitar as motivações e as justificativas de Gein. Menos, né?

Hitchcock também não é totalmente eficaz no tratamento seu tema principal. A preparação do script de Psicose é resumida a apenas uma reunião entre o diretor e o roteirista Joseph Stefano (os que leram o livro de Rebello sabem que a coisa deu muito mais trabalho); a sequência do chuveiro, que ocupou mais de 1/3 do tempo de filmagem, é encenada uma só vez (e mesmo assim, como se disse, com o enfoque no ciúme de Hitchcock e não nos aspectos cinematográficos); e os nomes de alguns colaboradores como o compositor Bernard Herrmann, o designer gráfico Saul Bass, e o montador George Tomasini, não têm um tempo de tela proporcional à respectiva importância de cada um deles para o sucesso do projeto. Essa superficialidade incomoda e prejudica o resultado final.

Se Hitchcock falha ao retratar o que aconteceu por trás das câmeras de Psicose, também não se coloca como uma biografia do diretor. Pouco sabemos da sua infância, dos seus pais, do seu casamento assexuado com Alma (apenas os vemos dormindo em camas separadas), da sua filha Patrícia (que também é limada da história), do início da sua carreira na Inglaterra, da sua parceria com David O. Selznick, da sua paixão platônica pelas atrizes que dirigia. Hitchcock não fala nem mesmo da indicação ao Oscar que o diretor recebeu por Psicose (que seria vencido  por Billy Wilder, em Se Meu Apartamento Falasse [The Apartment, 1960]). Em vez de fornecer este estofo de informações sobre o seu protagonista, o roteiro de Hitchcock prefere retratá-lo como um sujeito até meio infantil, que não consegue respeitar sua dieta alimentar, e que bebe destilados em plena luz do dia, bem além do recomendável.

Em contrapartida a todos estes defeitos, alguns fatos conhecidos dos bastidores de Psicose estão lá: a determinação  de Hitchcock proibir a entrada do público após o início da projeção do filme, de modo a manter intacto a surpresa da revelação final; a tensa relação entre o diretor e a atriz Vera Miles (no filme feita por Jessica Biel), por ter ela, dois anos antes, engravidado no início das filmagens de Um Corpo que Cai; a sugestão da homossexualidade de Anthony Perkins; a dificuldade de Hitchcock extrair uma interpretação decente de John Gavin; o alerta de Alma para a piscadela de Janet Leigh no último frame da cena do chuveiro; o reconhecimento de Hitchcock que esta sequência funcionaria melhor com o uso da trilha cortante de Herrmann, e por aí vai. São trivias interessantes, algumas mais outras menos conhecidas, que, se de um lado, são divertidas para todo o cinéfilo que se preze, de outro, não são suficientes para transformar Hitchcock em um bom filme.

O elenco de Hitchcock é all-star, mas não por isso isento de críticas. No papel central, Anthony Hopkins, auxiliado – ou atrapalhado – por uma pesada camada de maquiagem, faz o possível para reproduzir as características principais de Hitchcock, em especial sua fala arrastada, o estilo bonachão e a silhueta avantajada. Se a interpretação está longe de ser um desastre total, também não se compara aos grandes trabalhos que Hopkins realizou no início dos anos 90 (O Retorno a Howard´s End [Howards End, 1992], Vestígios do Dia [The Remains of the Day, 1993] e Terra das Sombras (Shadowlands, 1993]). Helen Mirren, que na vida real também é casada com um diretor de cinema, sai-se bem como Alma Hitchcock, mas o papel é daqueles que a atriz faz com o pé nas costas (sua indicação ao Globo de Ouro foi um exagero). Scarlet Johansson (como Janet Leigh) e, especialmente, Jessica Biel, parecem desperdiçadas.

Psicose (assim como, por exemplo, Cidadão Kane [Citizen Kane, 1941], Casablanca [idem, 1942], O Poderoso Chefão [Godfather, 1972], Cleópatra [Cleopatra, 1963], O Portal do Paraíso [Heaven's Gate, 1980], Apocalypse Now [idem, 1979], entre outros) pertence a um específico rol de obras cinematográficas cujos bastidores rendem um filme à parte. Daí que a opção de encenar essa história era altamente válida. Infelizmente os inúmeros problemas de Hitchcock (o próprio título do filme já é um erro) impedem que a coisa dê liga e a sensação que fica é de bela uma oportunidade perdida.

Comentários (6)

Caio Santos | quinta-feira, 14 de Março de 2013 - 07:57

o filme eu não vi mesmo, eu to falando de maneira geral que na minha visão de cinema fatos reais não tem a importancia nenhuma

Alexandre Marcello de Figueiredo | terça-feira, 19 de Novembro de 2013 - 20:05

Gostei da interpretação do Antony Hopkins como Hitchcock, embora não seja a melhor de sua carreira.

Luiz Fernando de Freitas | quarta-feira, 23 de Março de 2016 - 12:29

Acredito que a proposta central do filme tenha sido de apresentar uma abordagem mais humana de Hitchcock, assim como fazer jus a importância de Alma Reville para a carreira do diretor. Claro que algumas liberdades artísticas e digressões poderiam ter sido evitadas, mas de um modo geral é um retrato digno a um dos maiores realizadores do cinema e a um do filmes mais importantes já realizados.

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