Saltar para o conteúdo

Críticas

Cineplayers

Mais que um filme de super-herói, um filme ousado e dramaticamente denso protagonizado por um.

8,0
Embora tenha sido consistentemente o personagem mais interessante da série X-Men, Logan/Wolverine jamais teve seu potencial devidamente explorado nas telonas. Houve tentativas, claro, como nos dois filmes solo do mutante, o único do grupo a receber tal honraria, mas, infelizmente, ambos os esforços revelaram-se, no mínimo, decepcionantes. Em algum lugar, no entanto, mesmo que apenas nas mentes do diretor James Mangold e de Hugh Jackman, havia uma história a ser contada que fizesse jus à ferocidade e à personalidade complexa do homem de adamantium. Logan, para alívio dos fãs, é essa história.

Logo em sua primeira cena, Mangold (que também havia comandado Wolverine – Imortal) faz questão de deixar claro ao espectador que este é um filme bastante diferente daqueles vistos até então na série. Assim que Logan crava suas famosas garras no queixo de um bandido, e o cineasta mostra tudo de maneira gráfica, sem poupar no sangue, surge o primeiro sinal de que o que virá a seguir é, ao menos, um filme adulto, longe da assepsia e da esterilidade comuns a filmes de super-heróis. Mais do que isso, aliás: o que essa primeira cena esclarece é que se trata de um filme com a intenção de traduzir em tela as principais características do protagonista: seu lado sombrio, seu instinto animalesco e sua explosiva brutalidade.

E essa abordagem faz toda a diferença. Jamais seria possível abraçar tudo o que o personagem tinha a oferecer se a história envolvesse novamente outra dezena de heróis e ficasse escondida sob uma tonelada de inofensivos e duvidosos efeitos especiais. Apoiado pelo sucesso de Deadpool (que difere muito em tom, mas mostrou que é possível um filme fazer sucesso trazendo sangue), Mangold e seus roteiristas Scott Frank e Michael Green optaram por realizar uma obra artisticamente ambiciosa, que busca priorizar personagens e suas relações, e principalmente verdadeira com seu personagem, entregando as doses de violência que fazem parte de sua vida.
Não é por acaso que, em certo momento da produção, o Professor Xavier assiste a Os Brutos Também Amam na cama de um hotel. Assim como Shane, protagonista daquele clássico, o Wolverine de Logan é um homem (no caso, um mutante) cansado que busca deixar para trás uma vida de violência, embora este sempre acabe o reencontrando. Cansado e doente, vivendo em um mundo onde os mutantes não mais existem, Logan carrega nas costas o peso de tudo aquilo que já fez, não importando se todas as pessoas que matou tenham merecido seu destino – e sua resposta à jovem Laura quando ela aponta exatamente isso é significativa: “Dá no mesmo”.

Dessa forma, o personagem assume aqui uma característica que jamais teve antes: a vulnerabilidade. Pela primeira vez, Logan/Wolverine não é mais aquele mutante indestrutível, imortal, que irá se regenerar a qualquer ataque. A própria composição visual lembra constantemente o espectador desse fato: rosto enrugado, cheio de cicatrizes, barba por fazer e olhos vermelhos, cansados. Esse novo Logan é abraçado por Hugh Jackman com a fome de quem deseja explorar ao máximo as novas facetas de um personagem que parecia esgotado: o ator adota um andar trôpego e uma voz desgastada, mas jamais esquece da intensidade e irascibilidade do mutante, fazendo de Wolverine um personagem pelo qual é possível sentir pena, mas que jamais deixa de exalar perigo e ameaça.
 
Com a vulnerabilidade de Logan, o filme ganha um senso de urgência inédito e impensável até então na série; afinal, Wolverine pode se machucar e morrer. Assim, as cenas de ação deixam de ser apenas sequências que mais parecem tiradas de um videogame, mas se transformam em momentos de tensão e violência que realmente podem ter consequências. James Mangold, aliás, conduz a ação com habilidade, jamais permitindo que o excesso de cortes torne tudo aquilo confuso – e o cenário levemente distópico ainda permite que o diretor beba na fonte do recente sucesso de Max Max: Estrada da Fúria em ao menos uma sequência passada no deserto.

Porém, mesmo funcionando razoavelmente bem como um filme de ação, o fato é que Logan se destaca realmente por seu peso dramático. Se não chega a ser emocionalmente exaustivo como Batman – O Cavaleiro das Trevas, a produção desenvolve com surpreendente profundidade seus temas de culpa, dor e até mesmo família, encontrando ternura e ressentimento na relação entre o protagonista e o Professor Xavier (mais uma vez, defendido de maneira nobre por Patrick Stewart). O acréscimo da pequena Laura, uma assustadora mini-Wolverine, interpretada com carisma e energia por Dafne Keen, traz um toque especial a esse aspecto da trama, que resulta em cenas capazes de despertar emoção genuína na plateia.

Mas Logan não é desprovido de sua parcela de problemas, embora nenhum deles seja suficiente para estragar o quadro geral. Se o roteiro acerta na estrutura de road trip (gênero propício para o desenvolvimento dos personagens) e traz algumas boas ideias (o momento em que uma cruz vira um X é belíssimo), também peca em outras escolhas, como no tratamento unidimensional dado aos vilões, no apego a algumas convenções do gênero e na pouca explicação referente a determinadas questões. Sim, excesso de exposição sempre incomoda, mas algumas ideias poderiam ter sido melhor desenvolvidas, como, por exemplo, a relação entre Logan e Calliban, o evento causado por Xavier no passado e até mesmo a natureza da doença que aflige o protagonista.

Não obstante esses deslizes, o fato é que, em uma época na qual os filmes de super-herói se tornaram excessivos e genéricos, Logan chega para se somar a Deadpool e mostrar que é possível arriscar, e que a plateia está preparada para projetos mais densos. Em outras palavras, Logan é uma esperança de que os estúdios produzam cada vez menos filmes genéricos de super-heróis, e cada vez mais filmes ousados e dramaticamente ambiciosos que, por um detalhe, são protagonizados por eles.

Joey, não há como viver com... com um assassinato. 
Não há como voltar disso. Certo ou errado, é uma marca.
Uma marca permanece. Não há como voltar.
Diálogo de Os Brutos Também Amam

Comentários (9)

Bernardo D.I. Brum | domingo, 05 de Março de 2017 - 03:01

O que o título quer dizer é: não é um filme do "gênero" super-herói, é um drama protagonizado por um super-herói.

Luiz Fernando de Freitas | domingo, 05 de Março de 2017 - 15:24

É sério que tem gente que não entendeu o título da crítica... 😏

Robson Oliveira | domingo, 03 de Fevereiro de 2019 - 01:26

Filme foda, com algumas das melhores lutas que ja vi nesse universo de super heróis.

Faça login para comentar.