Saltar para o conteúdo

Nosferatu

(Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922)
7,8
Média
295 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Uma praga assassina e romântica viciada no sangue

10,0

A desgraça. Obra seminal do terror adaptando, de forma não autorizada, a história do Conde Drácula. A mais clássica vampiresca, e uma das mais pungentes do horror. No alto do 1922, dentro da seara expressionista alemã no cinema mudo, cria-se uma obra arrebatadora no seu visual, com um fenomenal personagem-título que assombraria gerações nas mais diversas adaptações, tendo poucas conseguido o tamanho dessa personificação dada ao putrefato ser como nesse filme dirigido por F. W. Murnau. Revolucionário. Um filme sobre certa praga. Um preto-e-branco sobre uma peste negra, ruim até o talo, mas que ao fim demonstra camadas cinzas inesperadas e humanas demais.

Abordagem frontal no horror pestilento. O pútrido corporificado. Tenebroso e trágico. Temos na figura do Nosferatu monstruosidade escrota, mas com um arcabouço sentimental surpreendente atrelado a ele. Algo caro ao romance do Bram Stoker? Figura absolutamente aterrorizante, e alquebrada ao fim pelo amor? Ora, se isso é raro nos filmes do gênero, e dos mais diversos subgêneros até no século XXI, avalie aí o impacto disso no início do século XX. Essa espécie de A Bela e a Fera vampírico deixa a obra ainda mais espantosa e assustadora. O Conde Orlok sofre desde seu passado de paixão por sua amada, que, diferentemente dos outros, não é somente fonte da sua sede de sangue. E assim mesmo ele não deixa a ser um nocivo perigoso e brutal. Calamidade. A obra explicita isso no seu tato visual arrebatador, com fenomenal uso de sua iluminação expressionista, suas sombras sempre presentes e esmagadoras em cena. A primeira noite no castelo entrega isso perfeitamente. Um assustoso conde que dá a entender sua estranheza, mas mostra a que veio na noite. Na madrugada do medo. Perambulando por corredores, sua sombra à caça por novas vítimas, numa imposição de apavoramento poucas vezes vista no cinema. A enfermidade abusiva.

No frigir dos ovos, temos um material que enfileira momentos clássicos. Entre os quais, a chegada da besta no encontro à mulher; o primeiro encontro e primeira noite ao ataque monstruoso nas sombras do seu castelo; a sequência do Barco; a chegada na cidade Wisborg; a morte trágica. Condenação. Maravilha. Como era de se esperar da escola cinematográfica citada, há muita força na cenografia. Cenários como partícipes na criação da tensão e refletindo personalidades. Algo caro ao horror, contemplado, quiçá criado, pelo expressionismo alemão. Cenários trabalhados e cheios de formas geométricas. Pontiagudas. Compridas. Opressoras. Exilando figuras a seus lugares dentro do espaço cênico, tal qual Hutter preso num castelo sombrio sempre temendo o que viria à espreita sob qualquer cômodo. Outro ponto é a trilha original de Hans Erdmann como parte direta da narrativa. Impondo sensações e objetivos. Delineando a narrativa à sua maneira, moldando o espectador naquele nefasto filme de arquétipos comuns junto ao pavor desconhecido. Isso já era estabelecido no cinema mudo, no qual a trilha tinha papel ainda mais forte na narrativa. O lance aqui foi atrelá-la à nossa querida categoria do podre.

Vampiros e a praga. Isso nos leva a um mote que vejo como primordial na obra. O sanguessuga sendo o medo intrínseco através da peste bubônica. Um desastre que assolou a Eurásia por anos, tendo seu auge ao fim da Idade Média, e dizimara 200 milhões de almas. O monstrengo reflete os ratos. A transmissão e a disseminação desastrosa. A tragédia viva chega a Wisborg. O barco. Sequência sensacional que mostra o crescimento dessa pestilência. O uso visual dos roedores nos barcos e navios, nos quais transmitiam a pandemia sem precedentes, estraçalhando quem se pusesse no caminho, assim como era a propagação original da moléstia. Tal qual este morto-vivo, velho e pútrido, sem deixar de ser intrigante. As sombras no temor. As ratazanas. O flagelo. Feridas no pescoço da galera. Alusão a esta cólera europeia com os ratos, com o vampiro carregando o medonho, o cruel. O prenúncio da desgraça. O caixão funciona exatamente nisso. Os gabirus saem dele.

Nosferatu, a mazela. O intangível desconhecido que destrói tudo ante o objetivo alimentar, seja este carnal ou emocional. Sai o anormal dentro dele para profanar corpos e exigir seu sangue. Mesmo que se defenestre a cidade inteira. Sugando a vida como uma execração incurável. Maldição. Os paletós de madeira carregados pela cidade. A ruindade se espalha. A epidemia. A perspectiva da mácula. Como num plano no vaguear de Orlok a carregar seu caixão na chegada à cidade sozinho, como se a população já amedrontada e parte sendo dizimada estivesse a fugir e a se esconder do pernicioso que chegaria. Há outros planos de suas vítimas sendo levadas pelos cidadãos em caixões também, numa simetria interessante. A confirmação no presságio maléfico. Dessa tumba sai a criatura e a doença, e, a posteriori, a reboque, chega a destruição, onde entram as vítimas, nestas caixas mortuárias. Um círculo vicioso abominável. 

O vampiro naquele novo ambiente atrás da amada, na qual ele vira numa pequena foto e se empolgara. Além de todo o aparato visual e alusões a fuleiragens destruidoras na Europa e na Ásia, é bom comentar a atuação de Max Schreck. O amaldiçoado sinistro. O overacting teatral a serviço do terror. Sou um cachorro cego num labirinto de hienas famintas quando se trata de cinema mudo, porém, o que Schreck faz aqui é um absurdo. Assustador e num perambular corpóreo que sempre causa asco e instiga a presença maligna. Desde seu olhar destroçado aos movimentos de seus membros nos acometendo a um balé macabro. A verdadeira doença. Sem deixar ainda de se explicitar o caráter da atração cativante que esta figura emblemática é ainda capaz de causar. Orlok e Helen Hutter. Ela, atraída por este magnetismo. A humanização final, por conta da Helen, da peste, da praga, do diabo, pela emoção que o mesmo sente por sua musa. Aberração de carga dramática. 

Filme que instituiu um manual no gênero. A presença do perverso, das sombras. A monstruosidade tácita, a construção do horror através da iluminação e dos cenários preparando para a entrada do bicho escroto. O amor como catalisador desse mal, como se sua essência dependesse disso, e que resultara no viciar e no condenar. Vida e morte. Os insetos se matando. A função da vida é matar numa permanência circular. A obra cita esses elementos mostrando a circularidade dos processos da existência, como se aquele monstro fosse mais um em busca de objetivo comum com métodos não aceitos por nós. Não tolerados. Uma praga viva. Nosferatu é um caçador, matador, uma fera, uma doença, tal qual nós mesmos já fomos. E ainda não o somos? 

Texto integrante do Especial Nosferatu

Comentários (4)

Luís F. Beloto Cabral | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 10:41

Sou apaixonado por uma cena em particular desse filme: quando Nosferatu adentra no quarto da mocinha, com a sua sombra projetando-se sobre o corpo dela até a mão subitamente se fechar em cima do seio, com ela se contorcendo de dor e prazer.
Belíssimo filme e ainda o meu preferido do Murnau. Ainda não vi o remake do Herzog.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:02

Está cena é sensacional. O uso de luz é sombra numa relação Carnal e psicológica. Foda.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 10:49

Sabe que eu estava lendo o livro "Drácula", e não existe nenhum arcabouço sentimental no personagem como Coppola quis criar, num filme que estranhamente é chamado de "Dracula de Bram Stoker", quando na verdade, devia de ser chamado "Dracula de Coppola" , não existe aquela coisa de homem traído por um amor, etc...O filme do Coppola apenas pega situações e personagens do livro de forma fiel, e romantiza, e é justamente este lado romântico que não existe no livro. No livro nós temos justamente o monstro(com um bigode)disposto a parasitar e matar, só! É um livro de horror gótico. Os dois filmes mais fiéis que eu assisti são justamente este, e a refilmagem do Herzog, porque não tentam impor romance onde não tem.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:00

Macho a meu ver existe implicitamente. Já que ele só papoca por ter se direcionado mais especificamente àquela mulher. Ele não se arriscou por mais ninguém de tal forma. O Coppola pegou este lance e o amplificou. Fez disso um mote para o personagem ao invés de somente uma característica dele sem tanta imposição.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:01

Por isso que muitos consideram Nosferatu a obra mais fiel ao livro. Ironicamente proibida. Sintetiza o livro de maneira mais seca.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:05

No livro ele não foca em mulher nenhuma Ted, a intenção dele é infestar aquele local. Ele seguiu apenas o traço deixado por Jonathan Harker. Ele não tem amor nolivro, nem sensibilidade. Ele usa Lucy para se alimentar, até ela morrer. E depois no final do livro, ele ataca Mina, porque descobre que Van Helsing está atrás dele. Não tem nada de sentir algo ou focar em uma garota no livro, que não seja para se alimentar.


CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:06

Não só foi proibida como foi queimada, se eu não me engano sobre viveu por um print.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:07

Ah macho li o livro há muito tempo. Mais de vinte anos. Devo ter confundido então. Pra mim tinha isso mesmo que por cima. No caso dele ter se arriscado e morrido ao fim quando estava debruçado sobre ela. No filme rola desta maneira.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:08

Uma cópia que foi salva numa cinemateca perdida aí. Acharam muitos anos depois. A mentalidade muda demais. O cinema não tinha esse tamanho todo. Hoje a galera vende os direitos pra qualquer um que puder pagar.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:13

Não Ted, eu não to criticando teu texto, relaxa. Tu sequer usou isso como mote orincipal deste teu ótimo texto. Eu só aproveitei que, mesmo gostando de adaptações criativas e do filme do Coppola, as pessoas que por acaso se interessam por minhas loucuras aqui nos comments se interessam pelo livro e não caiam muito que vendo o filme do Coppola eles estão praticamente lendo o resumão pro Enem, entende?É mais uma indicação e uma defesa do filme do Murnau como uma obra mais fiel no sentido do terror, apesar de Coppola ter sido mais fiel ao lado gótico, mas ter romantizado o que não existe no mostro.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:17

E cara acredite, eu peguei o livro para ler no Halowween só pra ter um motivo porque ele tava um tempão na prateleira. Tá fresquinho na memória, ele e "Frankenstein". Era uma dívida minha. Só pra constar que eu estou sendo completamente honesto contigo, li realmente o livro há pouco.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:18

Sim tô ligado. Pinho a cara a tapa é pra isso mesmo. O problema foi ele ter posto o nome do Stoker no título. É uma adaptação. Ponto. O cara nem tá vivo pra ter participado da produção pra ter o nome nela porra. Mas quanto mais adaptações melhor. Principalmente se seguirem caminhos distintos.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:21

Eu ia reler o livro, mas não tive tempo este mês. Por isso não foquei muito falando do livro, por não lembrar de tanta coisa. Citei o que eu conhecia somente e parti por outro caminho.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 10:55

O que acontece é que o livro faz parte daquele romantismo gótico do século XIX, muito bem escrito como se fosse um livro das irmãs Brontë. E a estilização do romantismo é a única coisa que tu pode notar em paralelo com romances de amor da época, tirando isso é um livro de horror, muito mais gore inclusive que Frankenstein(apesar do livro "Frankenstein" ser mais violento que qualquer adaptação). E outra coisa, o livro é epistolar, ou seja, se equilibra entre diferentes pontos de vistas, e o ponto de vista feminino demonstra sempre uma preocupação com casamento, mas só no caso da preocupação de Mina com o desaparecimento de Jonathan Harker. Mas aquela bobagem de Drácula ter sido um cavaleiro da igreja traído e amaldiçoado, ou rondar de óclinhos e bengala assistindo nickelodeons não tem nada a ver com Bram Stoker...não existe monstro romântico naquele livro, ele é exatamente como Max Schreck com bigode segundo a discrição do livro e violento.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:04

Aquele prólogo é invenção do Coppola. Porém faz um puta sentido já que o mote de inspiração do Bram Stoker para o livro é o Vlad Tepes. Vlad O Empalador. Príncipe Romeno da Valaquia em fins da idade média.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:10

Mas não existe nada na biografia de Vlad que identifique Vlad com aquele prólogo. Stoker estava com o Wampyr, se eu não me engano, e pesquisando sobre o Vlad ele tirou duas coisas apenas: a crueldade e a aparência. Vlad the Impaler talvez fosse um monstro pior que Drácula, sem background romântico...

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:15

Ele adapta o prólogo macho, que não existe no livro mas possui elementos históricos soltos. Ele junta tudo. O Vlad era um príncipe que lutava contra o Império Otomano e que ficou conhecido por empalar a galera. O Coppola usou isso pro filme. Romantizou isso também e ainda usaou do fato do Vlad ser um devoto da igreja ortodoxa e subverte a questão. Com a maldição sendo ligada à negação religiosa.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:21

Beleza Ted, eu acho bacana o Coppola fazer isso; mas Bram Stoker não fez. Se eu falar dos dois Nosferatus e do filme do Coppola nós estaremos falando de 3 dos meus filmes preferidos.
Sem falar do filme do Tod Browning( inspirado numa peça que teve o aval do Stoker para adaptar), e o filme da Hammer que sexualiza e transforma Drácula no sedutor da vindoura contra-cultura.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:23

Como te disse, é uma adaptação com até um senso de trato histórico por conta das inspirações óbvias do Stoker. Mas é o mesmo problema. O nome imenso grafado no título.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 10:59

Uma vez eu concordei com alguém falando no antigo Podcast do Cinema em Cena que: "o problema não é a adaptação; o problema é adaptar e colocar propositalmente como se fosse baseado no livro,com o nome do autor no título, quando o espírito da obra está no filme do Murnau".

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:05

Poderia fazer como fez o John Carpenter pondo o próprio nome dos filmes.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:11

Colocar o nome do autor do livro é tu assumir que aquilo é uma parada mais fiel, quando na verdade é mais uma versão. Seria uma ironia maravilhosa se fosse "O Iluminado de Stephen King", dirigido pelo Kubrick. Só pela farra. Aí o Stephen King tinha entrado em coma alcoólico.

CitizenKadu | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:15

É como eu disse Ted, eu não sou contra adaptações (algumas me incomodam de forma subjetiva, mas não é algo que eu condeno); mas colocar o nome do autor sugerindo que está sendo o mais fiel dos filmes foi realmente um erro porque ilude muita gente em relação ao personagem monstruoso que é o Drácula.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 29 de Novembro de 2019 - 11:19

Eu comentei sobre isso ali em cima. Isso angaria público enganando a turma.

Faça login para comentar.