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Piedade

(Piedade, 2019)
6,0
Média
4 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Rede que pesca afetos

7,5

A curva na carreira que Cláudio Assis começou a dar após Big Jato encontra um equilíbrio em seu filme novo. Se no antetior ele assumia um aspecto infanto-juvenil ao observar novo modo de filmar famílias desfuncionais (seu tema-fetiche), em Piedade ele aponta um universo misto, entre o profano de sempre e um sagrado particular, onde mesmo esses epítetos se apresentam borrados. Cláudio parece amansado, sem transmitir sensação de enjaulamento; é um leão com unhas cortadas, mas com um rugido ainda potente. 

No entanto, há um dado de afeto nessa desfuncionalidade que também já começou no último filme. Ainda que núcleos familiares sempre tenham permeado a obra de Cláudio, a fricção entre os seres criados partiam da deliberação ao confronto frontal, com ou sem violência, mas sempre encontrando uma fronteira bélica verbal que é ultrapassada frequentemente. Em Piedade essa fricção parte sempre do afeto para desaguar de novo no afeto, e cujos conflitos se deem no campo de buscar o outro, de comunicar-se através da "tentativa e erro"; sem perder suas característica primais, o autor busca agora a conexão em primeiro lugar.

Dois núcleos que se cruzarão partem do laço sanguíneo básico: um homem e seu filho que vivem da existência de um cinema pornô, administrado pelo pai; e um homem com seu sobrinho e sua mãe vivendo a beira-mar, ao redor de um restaurante tipicamente praiano. Essa ligação não tem clareza imediata a princípio, e o personagem de Matheus Nachtergaele serve como um elo que criará uma junção agressiva entre esses paralelos, esse sujeito agindo de soslaio para seus próprios interesses, vivendo uma história a parte dessa coluna vertebral do roteiro.

Trabalhando sem a presença de Walter Carvalho, Cláudio consegue vibrar suas imagens (captadas por Marcelo Durst) com uma propriedade particular que dão ao próprio autor, observando mais do que suas escolhas de linguagem, mas principalmente da sua imagem, ainda que exista um amadurecimento desse mesmo autor ou pelo menos um carinho diferenciado pelo que criou, deixando tudo muito palpável em texto, captação de imagens e mesmo energia. Mesmo que nunca tenhamos duvidado de seu talento como realizador, ao criar independência de um colaborador tão marcante, Cláudio cria agora um caminho de maturidade imagética, que remete a sua obra com propriedade, unificando seus códigos.

Essa já citada personagem de Nachtergaele parece apenas um gatilho de roteiro, que funciona para conectar os fatos - ainda que seja desenvolvido todo um background para o mesmo, nada disso parece conjurar dos temas apresentados até ali, e acaba criando uma deriva proposital para esse tipo, que não acrescenta nada ao bloco central. Ainda que o ator entregue a habitual boa interpretação que se espera dele e contribua (de alguma forma) para a ideia de contribuição do padrão de afetos que o filme dissemina. A relação do personagem com uma "mãe virtual" injeta humanidade a ele, e tenta elevar sua posição a um mero gatilho - embora não tão bem sucedido.

A rede de afetos de Cláudio se fecha na empatia e no imenso talento do seu elenco, em estado de graça da maneira mais natural possível. Fernanda Montenegro lidera um grupo que parece responder ao seu canto, no que ela contribui com hipnotizante parceria com Irandhir Santos, um ator mais do que superlativo e que aqui está especial, pois seu personagem trabalha num crescendo de espaço e de colocação dentro das molas narrativas; seu primeiro encontro com Cauã Reymond é das cenas de sua carreira. Por falar em Cauã, ele e Gabriel Leone formam um dos pilares do filme, e se Gabriel tem pouco a fazer dramaticamente (e seu personagem, assim como o de Matheus, também ele é uma espécie de gatilho - um gatilho temático e não narrativo), Cauã segura as pontas desses dois personagens-gatilho com muita elegância e propriedade; talvez seja a surpresa do filme, não por já não ter demonstrado talento antes, mas por estar num lugar minimamente ingrato.

Cláudio está minimamente protegido, como se vê. Sua incursão na seara do melodrama familiar teria sido muito mais efetiva se eliminasse os elementos "urgentes", mas eles fazem parte da construção dramática que o interessava. Graças ao seu talento de realizador e a um elenco no topo da forma, os escorregões que eventualmente dá não se constituem como um estrago, e sim como um acidente de percurso eventual.

Crítica da cobertura do 52º Festival de Brasília

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