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Críticas

Cineplayers

Atenção, a crítica contém muitos spoilers e é destinada a quem já viu o filme.

9,0

Adaptação do pesado livro homônimo de Lionel Shriver, Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011) segue a mesma lógica literária para narrar, no cinema, a provocante história de Eva, mãe do Kevin do título, garoto que desde o nascimento vive em constante conflito com sua progenitora. O que assusta não é apenas a falta de empatia, mas sim as agressões psicológicas e, por vezes, corporais, entre eles.

O filme não se prega a explicar o porquê daquela relação assustadoramente impensável, principalmente por envolver mãe e filho. De forma descontinuada, intercalando diversos momentos desde a gravidez até o final trágico, a diretora Lynne Ramsay opta por manter a mesma estrutura do best-seller, escolha extremamente acertada por construir na cabeça do espectador as mesmas desfragmentações daquela família e da relação principal, assim como cria a angústia com passagens que adiantam o que está por vir.

No início, a diretora emprega simbolismos óbvios, mas eficientes dentro do que virou a vida de Eva, marcada pela sujeira imposta pelo derramamento de sangue ocasionado por seu filho, num “espetáculo”, dentro da mentalidade insana dele, destinado a uma espectadora só. E, claro, por isso Eva é preservada de sua fúria, já que, além de assistir ao “grande show”, algo que Kevin acredita piamente quando agradece se curvando perante sua inexistente plateia, ainda é punida pelo filho com a destruição de sua vida, sendo obrigada a conviver com as marcas de ser julgada por todos e de perder sua família.

É justamente na hora de evidenciar essas marcas deixadas que Ramsay não busca ser sutil nos símbolos, mas mesmo assim acerta por deixar claro, com a cena inicial da guerra de tomate, o vermelho de sangue que sujou a vida de Eva e a tinta vermelha que impregna a fachada de sua casa e deseu carro, alvos de travessuras de crianças no Halloween. Sujada pelo vermelho no início, como um prenúncio do fim, ela passa o filme tentando limpar essa mesma cor que remete à insanidade cometida pelo filho. O molho de tomate, por sinal, aparece novamente quando tenta fugir, no mercado, da mãe de um dos meninos vítimas de Kevin na chacina da escola. Ao buscar refúgio em outra gôndola, posta-se de frente a molhos de tomate em exibição.

Precisamos Falar Sobre o Kevin torna-se intrigante por não opinar sobre quem é o mocinho e o vilão, por mais que o menino-título faça questão de, ao final, impor-se como o bandido. Apesar disso, nada inocenta a mãe, pelo contrário, a origem de seu próprio nome sugestiona alguma culpa. Talvez Kevin seja vítima da própria insanidade dela, não tão aflorada com a dele, ou resultado de uma rejeição, o que não a torna vilã da história. Enfim, o único crime é o cometido ao final, mas, sem julgamentos, o filme expõe a estrutura familiar e a relação patológica que levou àquela atitude de Kevin.

Eva, por exemplo: revolta-se com o filho quando este não se predispõe a brincar de bola com ela, como a grande maioria das crianças adoraria, e se divertiria, nesta mesma situação. Ele, por sua vez, mesmo pequeno, parece ter claro controle da revolta que sua atitude de não empurrar a bola de volta está provocando em sua mãe. E parece se divertir com isso. Essa espécie de revolta desde sempre pode ser uma resposta ao fato de a mãe ter rejeitado a gravidez, o que fica sugestionado na total ausência de cenas felizes e emocionadas com a notícia da maternidade. Depois, ela transforma esse sentimento em duras palavras contra o filho, quando este, insistentemente, tenta irritá-la. “Eu era feliz antes de você nascer”, dispara Eva.

Cansada da convivência com o filho, ela considera o choro do garoto ensurdecedor, preferindo parar com o carrinho de bebê ao lado de uma britadeira para que este som, realmente insuportável, pudesse se sobressair ao barulho da criança. A cara de alívio de Eva nesse momento revela uma mulher perturbada com a condição de mãe, ou, novamente, apenas pelo fato de seu filho ser o Kevin. O instigante é justamente tentar achar respostas em meio a essa relação disfuncional, é tentar entender desde o começo, todos os por quês.

Eva, entretanto, também tem o seu lado de grande destempero transformado em violência, quando, irritada com a birra do filho - já com mais de cinco anos, mas propositalmente ainda usando fraldas com o objetivo de dar trabalho a ela –, acaba por jogá-lo contra a parede, o que faz o garoto quebrar o braço. Só que o lado doentio e frio de Kevin aflora ainda mais nesse momento. Após a agressão da mãe, ao retornar do médico para casa e se deparar com o pai, mente a ele sobre o ocorrido, dizendo que havia apenas caído, o que causa estranheza no público, que, inocentemente, pensaria que Kevin iria tentar jogá-lo contra a esposa. Muito mais perturbado mentalmente, o menino escondeu a verdade apenas para poder chantagear Eva sempre que quisesse.  

A violência dela, porém, em escala muito menor a que ele praticará no futuro, mostra que uma possível linha de raciocínio é pensar, também, que Kevin seja uma versão muito piorada dela própria. E por isso a diretora concebe o soberbo plano em que Eva mergulha o rosto na água e sua face, ainda submersa, se funde momentaneamente com a do filho, fazendo criador e a criatura serem apenas um, como se ele fosse reflexo dela. De tão parecidos, se repelem.

Mas é preciso entender que aquela mulher, apesar de tudo, não é uma mãe cruel, para isso, basta reparar como a irmã mais nova de Kevin mantém uma relação extremamente carinhosa com ela, além de ser amável até em situações que o irmão, provavelmente, estrangularia o pescoço da mãe.

Kevin é assustadoramente mais frio, mais sociopata. Ele não tem o menor interesse por brincadeiras normais, como o caso da bola também explicita, além de não ter um amigo sequer. Seu grande companheiro, nesse sentido, é seu pai. O problema é a insensibilidade do chefe da família em entender o que se passa entre sua esposa e o garoto. Assim, totalmente cego para o que acontece de fato dentro de sua casa, presenteia Kevin com um arco e flecha, e é curioso como aquele alvo reflete com brilho no olho do menino, que encontra, enfim, um “brinquedo” que o faz feliz.

O arco e flecha são sua diversão e, cego de tudo, o pai não consegue nem mesmo ver que aquele tipo de brinquedo é exatamente o que o filho precisa para potencializar o seu lado violento – pena que o filme pouco explore o garoto longe dos conflitos com a mãe. Seria bacana tentar entendê-lo, mesmo que para condená-lo, já que suas atitudes são injustificáveis sob qualquer pretexto. A mesma imaturidade o patriarca exibe ao dizer para o filho, orgulhoso, que ele será o próximo Donald Trump (famoso milionário norte-americano) quando Kevin recebe na sua casa grandes cadeados comprados na internet sob a alegação de que irá revendê-los para os garotos da escola a fim de fazer dinheiro. O espectador, neste mesmo momento, já tem sua espinha congelada pela certeza do pior.

Fosse apenas isso estaria bom, o problema é que Kevin parece se inspirar bastante no personagem de Macaulay Culkin em O Anjo Malvado (The Good Son, 1993). Sua compulsão pela violência cresce tanto com o tempo que não poupa nem mesmo sua carinhosa irmã mais nova de suas atitudes repugnantes. Enquanto ela é capaz de fazer favores e sentir-se feliz em ajudá-lo, mesmo que forçada a fazer duas vezes seguidas a mesma coisa, ele não hesita em tentar tirar a felicidade da caçula, e confessa, amargurado, nunca ter se sentindo inteiramente feliz. Desse modo, rouba e mata o hamster de estimação dela, assim como, usando produtos que Eva faz questão de manter longe do alcance da menina em um armário trancado, acaba por fazê-la perder a visão de um olho. Nemisso faz com que a pequena Celia deixe de ser carinhosa, em grande contraste com a violência aparentemente gratuita de Kevin (ou não, a depender da interpretação dada para a natureza do rapaz).

Outro ponto interessante é a metáfora do gato, quando Kevin explica para a mãe a lógica animal ao dizer que o felino aprende a não fazer xixi no lugar errado pela dor, quando alguém esfrega sua cara no líquido para depois esfregá-la na areia. A esperta edição, neste momento, leva o espectador de volta ao passado, para ver aquela cena em que Eva ensina Kevin a usar o banheiro agredindo-o. Na sequência, ela ouve do andar de baixo o menino dando a descarga sozinho após fazer suas necessidades no lugar correto. 

Para ele, é pela violência que se ensina (basta saber se a atitude passada da mãe é que o fez pensar dessa maneira)e é por isso que no fim das contas age com extrema violência, para ensinar a mãe algo que – dentro de sua mente doentia – deve fazer grande sentindo. Por encarar que o aprendizado só vem pela dor, o resultado é aquele derramamento de sangue.

A pergunta mais natural ao final de tudo é “como aquela mulher tem força para continuar vivendo”? Não contenta pensar que ela está sendo punida por rejeitá-lo no período de gravidez. Parece pouco para o massacre psicológico cotidiano que sofreu, antes de ser vítima do doentio espetáculo de Kevin. E ao pensar sobre essa força de Eva, e seu esgotamento psicológico cada vez maior desde o nascimento do filho, impossível não lembrar da magnífica atuação de Tilda Swinton, capaz de dar seu único sorriso quando Kevin tem um lapso de carinho. De resto, é dor estampada na cara.

Enfim, após o atentado na escola, Kevin, em reclusão, aparece como alguém pouco arrependido e perturbado com o que fez, justamente por ter conseguindo acabar com a vida da mãe sem precisar matá-la. Revolta ver Eva, mesmo assim, visitando diversas vezes o filho na cadeia, rico simbolismo para expor quem está verdadeiramente aprisionado por aquele crime. Enquanto ele espera os anos passarem para ser solto, ela estará para sempre enclausurada na realidade dos acontecimentos. Entretanto, aos olhos do público, as visitas a humanizam, enquanto Kevin estará eternamente condenado. É o sangue que os une, e é o sangue que os separa – e também por isso tanta referência ao vermelho.

Comentários (12)

Gustavo Santos de Araújo | domingo, 22 de Abril de 2012 - 06:39

Soberbo. Tilda magnífica. Elenco excepcional. Tensão do início ao fim...O expectador realmente fica preso ao filme...e novamente TILDA magnífica.

Rosana de Almeida Machado | quarta-feira, 14 de Novembro de 2012 - 19:57

Uma das melhores críticas que já li...
Ótimas observações e análises... adorei... Parabéns...

Obs. Até modifiquei a nota depois de compreender algumas cenas e atos que estavam subentendidos...

Gustavo Pires | domingo, 07 de Julho de 2013 - 06:03

Crítica realmente incrível.

Rubens Sales de Andrade | domingo, 21 de Julho de 2013 - 23:08

😁.Genial a critica e sua percepção para os acontecimento do filme.

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