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República dos Assassinos

(República dos Assassinos, 1979)
6,4
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Críticas

Cineplayers

Nação marginal

9,0

Assistir ao clássico de Miguel Faria Jr. é se perguntar quando o moralismo brasileiro se iniciou, quando aqui apontava o oposto. Em 1979, o país estava entrando na fase branda da ditadura e, consciente de criar uma indústria, a Embrafilme já vinha investindo cada vez mais em produções policiais em grande escala, com o aval do presidente do órgão, Roberto Faria. Vem daí a ousadia que aportava nas salas, vítima de uma repressão que naquele momento começava a romper e permitiu a realização de um projeto como esse, que criticava a uma só voz o governo, a polícia, a imprensa e a burguesia, todos inegavelmente culpados.

Baseado no livro de um Aguinaldo Silva inspirado, bem distante do autor tão consagrado quanto cansado de hoje, o roteiro adaptado pelo mesmo não apenas nunca é careta como ousa em linguagem cinematográfica, propõe uma investigação narrativa com algum rebuscamento, cria uma teia coral para circundar um personagem e um tema, e passeia por um recorte neo-noir para apontar dedos na direção de uma sociedade que é o molde perfeito do estado das coisas de hoje, gerando paralelismos assustadores. Investigando os acontecimentos reais do período da criação do Esquadrão da Morte, o filme disfarça propositadamente pouco os personagens reais que seriam vistos explicitamente em Lúcio Flávio e Eu Matei Lúcio Flávio, como o líder Mariscot.

Em período de construção de uma indústria, de um nascimento de linguagens possíveis de comunicação em massa, o gênero policial estabelecido nos longas do período mistura chaves americanas de adaptação a códigos nossos, vindos de produções da pornochanchada. Sem vulgaridade, Faria desmascara a ordem social que reveste os hipócritas de plantão e mostra uma parcela crescente de marginais em inúmeras áreas, que almejam uma ascensão que nunca será ofertada a eles. Ao redor de todos, uma fatia generosa de abutres em esferas de poder diversas que, tanto ontem quanto hoje, buscam de maneira individualista a manutenção do status quo para mantê-los em suas devidas posições, ainda que a custo do extermínio alheio.

No holofote principal, Tarcísio Meira surpreende com a generosidade de sair de sua cadeira de galã para ostentar o semblante de um líder miliciano que age em benefício do Estado e obedece ao que o topo da pirâmide exige, ao menos até precisarem dele. Com o rosto e o corpo de Tarcísio a validar carisma a um homem de apontamentos espúrios, o filme abre um leque de ambiguidade que parte do ator e só se aprofunda; trata-se, acima de tudo, de um painel apodrecido de uma cena que envolve o crime organizado, o governo e a mídia mais poderosa da época, os jornais impressos.

O filme tem incontáveis cenas que se tornaram emblemáticas, como a do bandido sendo transportado no capô de um carro, o dono do jornal vivido por José Lewgoy cheirando uma carreira de cocaína para depois estuprar a atriz decadente vivida por Sandra Brea, o encontro sexual-amoroso entre Tarcísio e Sandra nas margens de um rio, que estabelecem um padrão icônico para a produção, em grande momento de seu diretor. Com inúmeros planos inspirados, como o que filma a alta sociedade pelo topo, mostrando o real lugar daquelas pessoas, Faria apresenta um produto de entretenimento com discussão política, e entrega também um de consumo largo corajoso e sofisticado em seu lugar de denúncia, que continua repercutindo um país sem caráter, que destrói quem não está nas divisões privilegiadas.

No centro de um elenco ousado e envolto em grandes interpretações generalizadas que quebram a quarta parede em esquema parecido com o de Cidadão Kane, fundindo o longa em uma espécie de tribunal com a câmera, o filme explode o talento de Anselmo Vasconcelos. Na pele de Eloína, Anselmo literalmente rouba o holofote para si, o que demonstra prós e contras em igual medida em cima dessa mesma questão - o filme gira em torno da namorada de Carlinhos, um Tonico Pereira igualmente formidável e que protagoniza com Anselmo o primeiro beijo gay (e que beijo!) da História do cinema brasileiro. Isso é tão positivo, pois trata-se de um grande personagem, quanto negativo, porque o filme acaba tão magnetizado pela personagem que todo o resto parece menos, mesmo sendo igualmente poderoso. Ainda assim, o infinito talento de Anselmo compôs uma das grandes personagens do nosso cinema, que acaba deixando clara ao final que a classe dominante não tem vez com o oprimido quando ele resolve insurgir.

Em tempos de Bacurau, 'República dos Assassinos' bate nas teclas sobre o poder da insurreição popular para mostrar que essa atitude de caráter popular diz muito sobre o nosso povo, mas diz ainda mais sobre o histórico de opressão e exploração que nossa sociedade submete quem não segue no mesmo trilho que a divisão abastada, ainda que no final da cartilha o barro onde todos são feitos seja o mesmo.

- Visto no 13º CineBH 2019

Comentários (1)

Josiel Oliveira | segunda-feira, 30 de Setembro de 2019 - 17:41

Belíssima crítica Carbone!
Dissecou o filme no gênero a que se propõe e pra nós, leigos, é muito legal ter contextualizações como essa do momento da Embrafilme e do cinema brasileiro naquele momento histórico.

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