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Segunda Chance Para Amar, Uma

(Last Christmas, 2019)
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Críticas

Cineplayers

Modesto e simpático

6,0

O prestígio de Paul Feig para a comédia recente é enorme. Ele criou a comédia televisiva Freaks and Geeks, que revelou James Franco, Seth Rogen e Jason Segel, dirigiu episódios de Arrested Development, The Office, 30 Rock, Parks and Recreation e alguns dos primeiros sucessos de Melissa McCarthy no cinema, como Missão Madrinha de Casamento e A Espiã que Sabia Demais. Só isso talvez explique por que, em tempos de franquias dominando as salas de cinema e comédias românticas de menor orçamento sendo chutadas para o streaming, um filme como Uma Segunda Chance Para Amar consiga seu lugar ao sol e ser exibido nas telonas de um mercado atualmente tão megalomaníaco.

Modesta até a medula, essa comédia romântica centra sua atenção em Katarina, ou melhor, Kate (Emilia Clarke), uma imigrante sérvia de família em crise que após sobreviver uma doença, tenta conseguir um emprego como atriz enquanto sente-se humilhada trabalhando como elfo doméstico em uma loja natalina. Em meio a rejeições, brigas familiares, porres homéricos, brigas com amigos e sexo casual degradante, Tudo parece mudar quando encontra Tom, um simpático e atencioso estranho que parece responder as angústias que vinha enfrentado até então. 

É curioso que essa é uma das primeiras vezes em anos que Feig não satiriza um gênero em particular - como aconteceu, entre outras, em obras como Um Simples Favor e As Bem-Armadas. Muito disso se deve ao roteiro de Emma Thompson, que também atua aqui como a mãe da protagonista e produz o filme. Seu roteiro, inspirado na música Last Christmas de George Michael, se leva a sério na construção de uma protagonista em um tortuoso caminho de auto-aceitação.

A vencedora no Oscar por atuação e roteiro em Razão e Sensibilidade demonstra aqui uma queda por diálogos didáticos e idealizados que interfere inclusive na construção dramática, com muitos personagens redundantes que poderiam ser unificados - tanto a mãe quanto a chefe da protagonista atuam como figuras maternas, enquanto figuras como o pai e a irmã quase não são exploradas. Para não dizer, também, que muitos desses conflitos familiares só tem introdução posterior ao conflito principal do filme, o que dá uma inevitável sensação de "barriga" à obra.

Não ajuda também que, como é habitual nos filmes de Paul Feig, o filme seja bastante problemático em matérias de ritmo; novamente é uma obra que poderia ser menor do que é, dado o número de questões que a protagonista tem a resolver em vários âmbitos acabando sendo atrapalhado pelo relacionamento com Tom, e cuja resolução entre os dois guarda em si um plot twist que até ser absorvido e processado exigirá mais um tempo de diluição dramática para então fechar os conlitos. 

Mas se o prestígio de Feig serve para alguma coisa além de conseguir espaço nos cinemas é conseguir em um filme "água com açúcar" feito esse suas marcas de autoria. As dinâmicas familiares que consegue introduzir em uma cena de flashback no início através de movimentos de câmera, a protagonista observando o interesse romãntico através de planso subjetivos através de uma janela e a autoconsciência com a qual coloca as emocionais e icônicas músicas de George Michael para ilustrar momentos importantes da obra. 

Note-se também que Feig é um apaixonado por construir personagens femininas. Uma Segunda Chance para Amar é menos uma comédia romântica e mais uma obra sobre auto-aceitação. O conflito do filme não é encontrar um parceiro romântico que irá redimir sua protagonista de suas falhas; mas a protagonista, justamente, se realinhar consigo mesma, em matéria de jornada psicológica, para conseguir se relacionar não só romanticamente, mas afetivamente com amigos e famílias. Talvez nem todo filme seu transmita isso de maneira tão explícita (aí vale lembrar sua paixão por emular e desconstruir gêneros), mas esse, no caso, é o que têm mais disso assumido desde Missão Madrinha de Casamento; ver os filmes de Feig torna-se justamente ver filmes de mulheres como protagonistas de suas histórias, cometendo erros crassos, fazendo más escolhas e lidando com suas consequências.

E, claro, tem também a maneira como Feig dirige os protagonistas. Henry Golding dá sequência ao typecasting que deslanchou em Podres de Ricos como o galã simpático e bem-intencionado, aqui levado inclusive às raias do exagero (ainda que intencional). Ele serve como uma "cama" perfeita para as atrizes com quem divide a tela; se na produção anterior o foi para Constance Wu, agora o é para Emilia Clarke, que confirma o que já foi descoberto em Como Eu Era Antes de Você.

Apontada como potencial "mulher durona" por conta da sua performance como a khaleesi Daenerys Targaryen em Game of Thrones, a atriz mostra uma versatilidade dramática em tela, sendo tão engraçada e comovente quanto uma mulher carismática e atrapalhada, mas como um lado triste e atormentado. Como a atriz já declarou que irá demorar até participar de outra grande franquia, pode ter encontrado um novo nicho a ser explorado aqui. Explorando todas as "cores" da personagem com naturalidade, pode-se dizer que é uma atuação de protagonista por excelência.

No saldo final, Uma Segunda Chance Para Amar é o típico feel-good movie que inclusive andava em falta nos últimos tempos. Difícil citar a última produção de temática natalina orientada às famílias reunindo nomes em voga, reunindo nomes famosos da comédia, do drama e de franquias blockbusters para contar algo despretensioso. Decerto entrará como um "filme menor" da carreira de todos os envolvidos, mas não que o torne desprezível, pelo contrário. É o que se coloca a pecha de "filme simpático", mas que nunca transcende isso - e talvez nem o queira.

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