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Tempo de Decisão

(Kicking and Screaming, 1995)
6,4
Média
7 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Olhando para uma geração

8,0

O cineasta Noah Baumbach conduz hoje uma filmografia admirável, uma obra daquelas que podemos dizer que forma uma geração ao mesmo tempo que reflete sobre ela. Frances Ha (idem, 2012), inclusive, resultado de sua parceria com Greta Gerwig, é, acredito, um dos grandes filmes da década. Há um interesse do cinema de Baumbach de pensar as relações que se estabelecem entre um grupo de pessoas (geralmente, jovens liberais de classe média) e o seu meio, seja os espaços por onde circulam, os outros sujeitos com quem interagem ou o próprio modo como se articulam como uma comunidade de indivíduos que fazem parte de um lugar, um tempo e uma classe.

Se isso já se faz presente em Tempo de Decisão (Kicking and Screaming, 1995), o primeiro filme de Baumbach, não podemos ainda concluir que se trata de algo que o diretor criou sozinho. Ele junta o seu percurso ao de outros diretores com empreendimentos semelhantes, como Whit Stillman, Wes Anderson, Sofia Coppola e, mais recentemente, a geração do mumblecore, Joe Swanberg, Andrew Bujalski e sua própria colaboradora, Greta Gerwig. A primeira parte desses cineastas antecipou muitas das discussões sobre conflitos de gerações que estão em pauta até hoje; o segundo grupo, no olho do furacão de uma crise estética geracional do século XXI, precisou buscar respostas formais para as perguntas elaboradas por seus antecessores.

De modo geral, o universo de Baumbach é o de uma jovem elite acadêmica da costa leste estadunidense. Tempo de Decisão nos mostra um conjunto de personagens recém-graduados da universidade e em busca de um rumo para as suas vidas. Mas, no lugar do carisma ora melancólico e ora maníaco que define a protagonista de Frances Ha, esses personagens são tratatos com um sarcasmo cortante – o mesmo deboche, talvez, com que conduzem as suas próprias vidas.

Há muita agressividade no filme, que parece incorporar a antipatia dessas figuras privilegiadas e sua indiferença generalizada. Enquanto considero mais interessante quando Baumbach busca se aproximar afetivamente dos seus personagens antes de desdobrar as suas contradições em cena, a sua acidez imediata é muito apropriada aqui, no que parece ser um olhar autobiográfico cheio de ironia. É uma abordagem semelhante a que Lena Dunham traria, anos depois, na série Girls – ou, pelo menos, na melhor parte dela.

Mas de fato Tempo de Decisão tem essa qualidade de espiar por sobre a própria geração. A sua perspectiva é de cima pra baixo – não há como os personagens escaparem dessa teia de desdém que costuraram para si mesmos. Os diálogos intermináveis, os gestos desconsiderados e a atitude de descaso desses garotos (pois, diferentemente de outros filmes de Baumbach, os principais personagens aqui são homens) nos afasta como frios observadores desse mundo mesquinho e favorecido.

Mas como uma obra que é melhor definida por um menosprezo disseminado poderia influenciar toda uma corrente do cinema independente estadunidense a partir dos anos 2000? Acredito que o que aparece em Tempo de Decisão é a necessidade de uma aristocracia intelectual emergente de se incomodar consigo mesma e de quebrar a base moral dos artistas liberais nos EUA ao filmar o pedestal onde eles se colocam. Esse desconforto se manifesta, em diferentes filmes e autores do período, de forma gradual e diversa, e é interessante ver como ele hoje se traduz, principalmente no cinema de Greta Gerwig e Joe Swanberg, como um modo de contemplar uma certeza sobre si e sobre seu futuro que foi deixada no passado.

De algum modo, nós ainda acompanhamos os personagens de Tempo de Decisão até hoje. Eles se difundiram pela cultura cinematográfica e televisiva estadunidense, e eu diria que nunca estiveram tão presente no audiovisual quanto em meados da década de 2010. É fascinante perceber o quanto esse filme expressa questões de juventude, classe, masculinidade, branquitude e privilégio que são distintamente pertinentes ainda hoje, para artistas e cineastas contemporâneos. Podemos armazenar hoje todo um gênero de filmes e séries que partem de inquietações semelhantes e que resultam, proveitosamente, em uma construção coletiva dos modos de olhar para si.

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