Saltar para o conteúdo

The Boys

(The Boys, 2019 - ...)
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Crítica - The Boys - 1ª Temporada

8,0

Tal como foi em seu lançamento nos quadrinhos, The Boys é um corpo estranho no mundo dominado por heróis em 2019. Em 2009, quando Zack Sndyer produziu Watchmen - O Filme (2009), a indústria não era tão ditada pelo gênero quanto hoje, e o filme com sua violência estilizada através de bullet time e canções de rock pareceu mais uma adição ao gênero do que uma contestação. No caso aqui, a série chega para bastardizar os heróis - logo após terem sido debochados por Deadpool (2016) e descontruídos por Logan (2017).

Criado por Garth Ennis para os quadrinhos e lançado entre 2006 e 2012, The Boys foi para o público o sucessor natural do autor norte-irlandês após o sucesso de Preacher, sua série que misturava humor negro, blasfêmias mil, mas também um triângulo amoroso dramático e um reflexo de uma América profundamente ferida. Preacher foi levada com sucesso para a AMC pela dupla formada pelo ator Seth Rogen (Ligeiramente Grávidos) e o roteirista e diretor Evan Goldberg (A Entrevista), que agora em The Boys assinam a produção da série ao lado do criador do projeto Eric Kripke, transpondo para a Amazon Prime o verdadeiro sorriso de escárnio de Ennis mirado para a cultura de entretenimento popular.

No mesmo ano que vemos em heróis símbolos da integridade lutando contra o invasor alienígena Thanos em Vingadores: Ultimato, a nova série traz um mundo não muito diferente do nosso, onde o que manda é a fama: poderosos superseres andam pela Terra acima dos seres humanos normais, e caso se destaquem o suficiente podem ser agenciados pela Vought International, grupo bilionário cujo grande plano de sua vice-presidente Madelyn Stillwell é convencer o Congresso que a segurança do país seja feita pelos “supers” privados da empresa, Os Sete, espécie de (per)versão da Liga da Justiça.

Através da figura de Hughie Campbell, que após perder a namorada por conta da irresponsabilidade do super-humano velocista Trem-Bala é recrutado pelo inglês Billy Butcher a integrar um grupo de elite que recebe dinheiro da CIA para se vingar dos atos irresponsáveis dos heróis irresponsáveis. E como são irresponsáveis, conheceremos através da figura da jovem e cristã super-heroína Starlight: temos assediadores sexuais, viciados irresponsáveis em drogas, sensacionalistas que se promovem em cima de tragédias, gente baixa que só se preocupa com views e likes nas mídias sociais… Mas no final das contas, graças à gigantesca máquina de propaganda da Vought, todas as vítimas mortas, abusadas e aleijadas pelos heróis não parecem afetar sua imagem imaculada, patriota e conservadora. 

Nos atuais tempos excessivamente politizados, The Boys é uma série que evidentemente toma partido, com uma proposta algo similar ao filme Vice, dirigido por Adam McKay com Christian Bale interpretando o ex-vice presidente Dick Cheney: caricatura ampla, total e irrestrita, em um produto que está sempre fazendo referência a fatos atuais que estejam em evidência, como o arco envolvendo o assédio sexual cometido por Profundo fazendo referência explícita à homens poderosos abusivos como Harvey Weinstein, Bill Cosby e outros. Ou o governo americano criando super terroristas em lugares estratégicos do mundo para ter uma justificativa de intervenção.

Há uma certa carga dramática, sim, como na exploração no passado de Billy Butcher e na história da Fêmea - aliás, aqui que mora o grande diferencial da série para os quadrinhos. Como aconteceu na série Preacher, repete-se a estratégia de contar a origem do grupo-título e como foram capazes de desenvolver estratégias para combater os super-heróis, como a descoberta do Composto V, que já era algo pré-estabelecido no cânone da HQ. Aqui uns tantos eventos centrais da trama foram atrasados, sim; mas foram feitos de maneira apropriada para desenvolver seus personagens, como Patriota/Homelander, o típico escoteiro de azul que lidera os heróis, que faz tudo para manter a imagem de santo ao mesmo tempo que comete crimes e descobre segredos traumáticos sobre seu passado.

Dessa forma, a série é muito feliz ao aliar o circo grotesco de Garth Ennis, contando com alguns momentos hilariantes - como quando Billy Butcher invade uma maternidade e a maneira que arranja para lidar com os adversários (Karl Urban está especialmente inspirado em seu timing cômico) ou todo o arco cheio de trapalhadas envolvendo o sequestro de Translúcido - com um drama sombrio e pesado sobre pessoas que cometem atos extremos, mas que jamais perdem a postura de heróis do status quo.

Esse caráter tonal ambivalente de humor negro (onde o protagonista Hughie é subornado pela empresa para silenciar qualquer polêmica pela perda da namorada) e drama sombrio (com os flashbacks detalhando a razão de todo o ódio tanto de Billy pelos supers quanto de Homelander pelos humanos) cai como uma luva nos tempos de hoje, tanto pela leitura estética que pode ser feita ao se desconstruir as narrativas heróicas de forma ácida, quanto pelo tema que é justamente sobre um grupo marginalizado que enfrenta a narrativa oficial, os fatos contra a imagem construída. Honoré de Balzac disse certa vez que “atrás de toda grande fortuna há um grande crime”, e Eric Kripke parece concordar pela lógica implementada aqui. Por trás de todo rosto bonito e imaculado há uma multidão de gente que teve que pagar por essas reputações ilibadas.

Grosseiramente hilário, mas também brutalmente catártico, The Boys dispara contra o entretenimento purista para descobrir estruturas horríveis escondidas. A truculência crítica se pagou e os fãs de quadrinhos receberam bem a série que ri dos produtos que dominam nossa indústria hoje, máscara otimista de um dos tempos mais consumidos pelo ódio político-social e após fazer troça do entretenimento, das corporações e um pouco da político, uma segunda temporada já está a caminho para 2020 - ano das eleições presidenciais americanas, o que já parece um certo prenúncio de alguns calos alegoricamente pisados pela nova metralhadora giratória da Amazon Prime.

Comentários (0)

Faça login para comentar.