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Críticas

Cineplayers

Adaptando o reboot do reboot.

4,0
Uma das maiores franquias da história dos videogames, Tomb Raider já havia ganho duas adaptações para o cinema em 2001 e 2003, respectivamente, com a megaestrela Angelina Jolie no papel da aventureira Lara Croft. A heroína construída ao molde de Indiana Jones era rainha absoluta em seu campo até o surgimento da franquia Uncharted,, onde seu protagonista Nathan Drake chamou os holofotes para si ao contar histórias um pouco mais elaboradas com um protagonista que realmente sofria ao longo do percurso tanto com injúrias físicas quanto com traições. De maneira retroativa surgiu Tomb Raider (2013), com um gameplay que incorporava sobrevivencialismo com uma mecânica à lá RPG, envolvendo ganho de experiência para aprimorar armas e atributos. O sucesso de público e crítica garantiu uma sequência, Rise of The Tomb Raider (2015).

Essa contextualização explica a origem de Tomb Raider: A Origem (2018), o “reboot adaptado do reboot”, onde Angelina Jolie dá lugar a Alicia Vikander, que ficou conhecida pelo filme O Amante da Rainha (2012) e consagrou-se com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua performance em A Garota Dinamarquesa (2015). E se o original tinha o diretor Simon West (Con Air, Os Mercenários 2), quem senta na cadeira da direção dessa vez é Roar Uthaug, cujo filme que fez sua carreira despontar foi Presos no Gelo (2006), slasher com elementos de sobrevivência que acabou dando origem a duas sequências.

A trama do original que envolvia Lara e um grupo de sobreviventes ainda se atém ao mesmo conflito - os esforços de Lara em sair da desconhecida ilha de Yamatai - mas em todos os outros detalhes ainda é uma história completamente nova. Agora, em busca do rastro do pai desaparecido, Lara Croft contrata o navegador chinês Lu Ren para levá-la até a ilha localizada no meio do Mar do Diabo e acaba como refém de Mathias Vanger, líder de uma milícia financiada por uma organização criminosa conhecida apenas como “Trindade”, que busca o corpo da rainha japonesa sobrenatural Himiko para aumentar seu poderio.

O roteiro de Geneva Robertson-Dworet e Alastair Siddons mostra certa intimidade com o videogame, constantemente fazendo alusão a vários elementos da obra original, mas suas duas horas parecem insuficientes; a jornada de Lara é encerrada em um trabalho genérico de personagem, onde o desenvolvimento a conta gotas do videogame (Lara encontra um arco, caça cervos, aprende a escalar, etc.) praticamente inexistem. O que temos é uma abundância de flashbacks e narrações em off de Richard Croft (Dominic West), pai de Lara, que contextualizam o estofo místico da obra e mostram de onde Lara tirou tantas perícias. 

Uma escolha, digamos, mais tímida que a do jogo, também secando a equipe do navio Endurance apenas para o aliado Lu Ren e secando os muitos pontos de vista dos inúmeros documentos para apenas um. A sensação de início de jornada (prometida pelo subtítulo em português, “A Origem”) também é bem menos fundamentada aqui, pois a impressão é que Lara já é uma sobrevivencialista nata desde o início; talvez o único grande ponto de virada nesse sentido poderia ser quando Lara mata com as próprias mãos um dos asseclas de Mathias, mas o momento serve apenas para que Richard seja introduzido na trama, o que mostra que o roteiro, assim como a personagem, “fraqueja” em deixar o personagem ir embora para que sua protagonista possa andar com as próprias pernas. 

As comparações aqui não são com o propósito de atestar que o filme, por guardar diferenças com o jogo de origem, seja “pior” por “não seguir à risca”, mas sim de destacar ferramentas narrativas muito bem utilizadas antes e que aqui, parecem apressadas, confiando suas esperanças no didatismo do desenvolvimento. Ao invés de parecer algo inspirado no eterno Indiana Jones, parece mais um genérico, onde fórmulas e clichês batidos (lições de moral, sacrifícios heróicos, discursos malignos mirabolantes) não tem um por cento do carisma inteligente de Spielberg - ainda que tente emular e amplificar o frenesi.

Falando puramente de como o filme se sustenta sozinho, a sensação é que Roar Uthaug, que criou-se no cenário internacional no horror, agora se vê em um filme de ação com censura 12 anos, resumido a ações e lutas, com aspectos que poderiam vir a ser potencialmente mais grotescos ou perturbadores bem disfarçados por sombras e movimentos de câmera. Perseguições e combates físicos tomam o resto do filme, e se a câmera livre e chacoalhante das primeiras cenas prometem um clímax mais cedo ou mais tarde, Roar entrega em seus picos de emoção apenas uma repetição sem muitas diferenças de encenação ou variação da intensidade.

Vikander é realmente funcional como a Croft menos humorada e mais dramática, e nesse sentido os momentos de humor realmente parecem forçados para ser mais simpático às famílias que forem assistir o filme. Mas isso mostra uma certa discrepância de tom - como se o filme quisesse tomar certos rumos mas se contivesse. Não é uma aventura juvenil no limite da temática adulta, mas também não é uma aventura fanfarrona e despretensiosa. O filme fica perdido no limbo: quem é Lara, uma mulher moldada pelo sofrimento ou só alguém que enfrenta o perigo com um sorriso divertido? Mas apesar dos problemas, o carisma da atriz mantém o interesse no mínimo aceitável. Fica a sensação, porém, que havia potencial para mais.

Que Tomb Raider: A Origem vá performar bem na bilheteria é perfeitamente possível, mas ao mesmo tempo é difícil crer que vá aparecer numa lista de melhores do ano ou tornar-se referência do bom filme do gênero. Seus melhores e mais imersivos e intensos momentos nas sequências de ação são tiradas diretamente do videogame (o avião enferrujado, o pára-quedas, a invasão sorrateira), então por méritos próprios não sobra muita coisa. 

No geral, um filme cujo problema não é exatamente ser ruim, mas ser medíocre, cedendo à inúmeras facilidades e não reproduzindo nem de longe a ação de tirar o fôlego prometida. No jogo, quando Lara sobrevive à uma queda e temos um segundo de respiro, o chão logo começa a desmoronar e nosso tapete é puxado; aqui, cada sucesso é recompensado com uma música tão heróica quanto esquecível. E isso já diz (quase) tudo sobre a construção dramática de um filme bem aquém do seu potencial.

Comentários (3)

Pedro | sábado, 17 de Março de 2018 - 01:45

o primeiro Lara Croft, além de ser bem legal, tinha a Angelina Jolie no auge da taloucura, nesse escolheram o que parece um moleque as entradas da puberdade pro papel.

Luiz Fernando de Freitas | domingo, 18 de Março de 2018 - 14:54

Concordo que o filme ainda esta longe de ser a adaptação que salvará as adaptações de videogames para o cinema, porém é um passo importante nesse sentido. Gosto das duas versões estreladas pela Jolie, porém esta nova versão é bem superior em todos os sentidos. E a escalação de Vikander para esta nova versão da personagem foi um dos principais acertos.

Antonio Montana | quinta-feira, 07 de Junho de 2018 - 18:05

Achei que na primeira metade o filme consegue emular muito bem a sensação do jogo. Concordo que poderia e deveria ter trabalhado melhor a genese da personagem ao inves de usar tantos flash backs e narrações, mas o que irritou de verdade é a parte final, tão sem sentido e com respostas tão fáceis que dão até raiva e levam o filme todo por água abaixo. Uma pena, tinha tudo pra começar uma série boa de filmes e aparentemente não vai passar de mais uma séria boba de filmes...

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