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Críticas

Cineplayers

O poder da pauta.

4,5
Mildred tem um balanço no seu quintal, e dele consegue ver uma estrada quase não utilizada de sua cidade com três outdoors abandonados fixados nela. Observando esse quadro recortado, Mildred tem uma ideia. Ela procura e acha os responsáveis por propaganda em Ebbing, sua cidadezinha, e consegue pagar um mês de anúncios. As mensagens que ela manda para escreverem nos três outdoors são simples:

"ESTUPRADA ENQUANTO MORRIA"

"E AINDA SEM PRISÕES?" 

"COMO PODE, XERIFE WILLOUGHBY?" 

A estrada abandonada vira então assunto local da imprensa, e gera incômodo generalizado na cidade e nas autoridades locais. Mildred não quer nada além de justiça para o assassinato da filha, que ainda teve o corpo carbonizado, e espera com isso que a polícia agilize uma investigação que ela não vê acontecer. Todos parecem estar do lado de Mildred e contra a força policial, apesar do xerife querido. Logo, tanto ele quanto o belicoso oficial Dixon irão bater de frente com essa sofrida mãe, e o jogo de culpa vai intercalar entre os três durante a projeção do novo longa de Martin McDonagh.

Irlandês que está no grande momento de sua carreira, McDonagh ganhou um Oscar de curta na década passada por Six Shooter, tendo voltado a concorrer pelo roteiro de Na Mira do Chefe, seu primeiro filme. Também excepcional dramaturgo (uma das melhores peças da década passada é um texto de sua autoria, O Homem Travesseiro), McDonagh parece ter chegado no ápice graças a um filme que chegou no momento certo de maneira tão calorosa que a impressão que temos ao assistir Três Anúncios para um Crime é a de que os problemas do filme estão sendo abrandados pelo lugar onde ele deve ser colocado. Depois da enxurrada de denúncias de assédio sexual em Hollywood que 2017 viveu, derrubando várias carreiras estabelecidas e colocando um grupo de corajosas mulheres nos holofotes, não é estranho que um filme com predicados onde a protagonista é uma mulher de fibra que luta pela resolução de um caso de violência sexual esteja no meio dos holofotes da temporada. No entanto, não seria melhor se esse filme fosse menos assolado de problemas?

Sem atrelar qualquer questão oportunista ao contexto, a verdade é que McDonagh nunca pareceu tão travado e talvez até deslocado enquanto diretor, com uma proposta diferenciada do que já tinha apresentado. Se nos seus dois longas anteriores o clima policial era recheado de doses de farsa e humor negro e politicamente incorreto, suas produções funcionaram a perfeição exatamente porque a violência absurda ganhava contraste com o igualmente absurdo das situações, personagens e com as gags hilarias do todo, presentes em ambos. No entanto esse equilíbrio desanda aqui, talvez por que o gênero aqui seja um pouco mais distanciado dos anteriores. Trabalhando em linha tênue entre o humor e a tragédia que afeta todo aquele grupo de personagens, não deveria ter espaço para que os tipos mostrados no filme se comportassem como o mesmo como numa peça farsesca. Com um trio de personagens principais e mais um grupo de coadjuvantes, além de participações menores, o que vemos é um vocabulário unificado a todos os tipos que passam na tela. Seja homem ou mulher, jovem ou velho, negro ou branco, o filme constroi seus diálogos como se fosse um monólogo dividido entre 10 pessoas diferentes, todas com um linguajar que remete aos longas anteriores de McDonagh, de textura bem diferente desse. O que nos leva a crer que a transposição de ambiente não foi bem assimilada pelo autor, que criou uma visão bem particular, quase fictícia, de uma cidade do interior americano.

Outro erro no qual o roteiro incorre diz respeito aos aspectos macro de sua narrativa, que se fazem necessários mas não são assimilados pela direção. Um dos trabalhos de McDonagh como autor seria de criar uma conexão entre o que o roteiro apresenta em diálogos e sua representação em estrutura narrativa e imagética, e o filme simplesmente não consegue desenvolver um raio que potencialize o que é dito através de ações. Exemplo: mais de uma vez é repetido pelos personagens como o xerife Willoughby é amado pela cidade, insistentemente... isso só não é sentido ou comprovado de forma alguma pelo filme a não ser por esses diálogos expositivos. Além disso o roteiro do filme ainda desenvolve 'coincidências' espaciais no mínimo duvidosas, os chamados 'deus ex-machina', que insistem em desenhar de maneira forçada situações que poderiam facilmente ser desenvolvidas de maneira mais orgânica.

Apesar do que já foi dito, dois núcleos são extremamente bem desenvolvidos pelo roteiro de McDonagh. Tanto o rancho do xerife Willoughby com sua esposa e filhas quanto a família de Mildred, toda ceifada pela tragédia e por isso vivendo num circular de ódio ininterrupto. Na verdade esse ódio tão entranhado nesse lar promove uma leitura dura sobre as viciosas relações familiares dos dias de hoje, que abriram espaço para a chegada do mal através do desamor que os une. Esses personagens e suas inter-relações são o que de melhor o roteiro do filme apresenta, ressoando o que viria a ser o tema capital do filme mais adiante, a redenção e a ressignificação de personalidades, que podem mudar completamente de acordo com cada olhar. Lógico que nada disso seria possível sem o auxílio de um elenco em forma, que conta com as presenças acima de qualquer suspeita de Frances McDormand e Woody Harrelson, em estado de graça em dois papéis que permitem grandes momentos a seus intérpretes.

Ainda que possua eficientes montagem e fotografia, além de um plano-sequencia muito bem realizado, Três Anúncios para um Crime não é um longa que procure firulas visuais e extravagância - ainda bem, pelo menos o filme é muito discreto esteticamente. Seu forte é esse elenco de peso escalado (ainda que alguns tipos sejam completamente pálidos e sem sentido, como Peter Dinklage), que eleva um material de roteiro negativamente complexo. Quando o quadro geral se desenha e percebemos que o tanto de seu tema está concentrado no personagem de Sam Rockwell, tão mal construído a ponto de rasurar o seu trabalho, é que fica claro que o filme de Martin McDonagh está surfando uma onda necessária e pertinente, que acabou criando uma benéfica cortina de fumaça em seus próprios erros. 

Comentários (14)

Dáiron César Waick Schuck | domingo, 11 de Fevereiro de 2018 - 13:21

As críticas andam muito estranhas. Filmaços são destroçados enquanto uma bombas recebem notas boa. Vai entender.

Caio Lucas | terça-feira, 13 de Fevereiro de 2018 - 23:39

O que o senhor escreve é sempre ruim demais. Mas entendo que tem que ter alguém para falar sobre os filmes lançados no circuito.

Matheus Darswik | quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018 - 23:08

Eu não assisti ao filme ainda, mas parece-me interessante em seu todo.

Robson Oliveira | sexta-feira, 08 de Fevereiro de 2019 - 11:29

"Carbone viu outro filme.... Não é possível."
faço das suas palavras as minhas.

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