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Joias Brutas

(Uncut Gems, 2019)
7,7
Média
152 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

A narrativa cinética

8,5

Se o cinema surgiu a partir da ideia simples e ao mesmo tempo impressionante da imagem em constante movimento, seus primeiros anos de vida foram dedicados por diversos cineastas a explorar o máximo possível dessa dinâmica e das infinitas possibilidades de tratar da cinética pura, com narrativas todas fundamentadas nos movimentos dos atores no quadro. Ao longo dos anos, no entanto, com novos recursos e avanços de tecnologias, assim como novas formas de enxergar cinema, a mítica deixou de ser apenas imagem em movimento e foi ganhando outras características e adendos, de modo que nem sempre a ação se destaca como ponto central do filme. Em alguns trabalhos, ela mal chega a ter qualquer relevância. Por isso um filme como Joias Brutas (Uncut Gems, 2019), dos irmãos Ben e Josh Safdie, parece hoje tão raro e às vezes fora da capacidade de assimilação de muitos espectadores.

O que mais cativa e ao mesmo tempo perplexa em Joias Brutas não é nem a ação como parte da narrativa, mas como o único recurso dela. Tudo de relevante na vida do joalheiro Howard Ratner (Adam Sandler) e todos os conflitos que o afligem simultaneamente enquanto ele procura fugir de dívidas e resolver os pepinos da vida pessoal nos são apresentados em rápidos flashes que passam como borrões enquanto a câmera dos irmãos Safdie se esforça para acompanhar os passos incessantes do personagem pela cidade. São raros os momentos de pausa e alívio, e mesmo nesses descansos o tempo não perdoa e sabemos que algo de muito urgente e novo está para somar à trama em breve.

Se os cineastas já haviam apostado em narrativas com a mesma urgência de ação em trabalhos anteriores como Go Get Some Rosemary (idem, 2009) e Bom Comportamento (Good Time, 2017), agora eles se aproximam ainda mais da lógica impressa por John Cassavetes em A Morte de um Bookmaker Chinês (The Killing of a Chinese Bookie, 1976), no qual o lendário diretor e pai do cinema independente também acompanha a rotina incessante de um homem envolvido com gente perigosa e poderosa, enquanto toda sua vida pessoal vai desmoronando pedaço por pedaço. O tempo, dentro dessa premissa, é o elemento mais importante e mais em falta, de modo que a forma como os cineastas o moldam e expandem em favor do fluxo incessante da narrativa também remete a uma das funções mais primordiais do cinema. Para tanto, o controle de câmera, a marcação dos atores e a montagem precisam trabalhar em forte sintonia, ou toda a ideia vendida se desmancha ao menor sinal de dissonância.

No ponto central desse furacão se encontra Adam Sandler, que recentemente venceu o Independent Spirit Awards de melhor ator por esse trabalho, e mais lembrando por suas participações em populares comédias infames. Se ele já havia demonstrado grande capacidade de ir além do estereótipo que sempre encarnou em filmes como Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love, 2002), Espanglês (Spanglish, 2004), Reine Sobre Mim (Reign Over Me, 2007) e Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe (The Meyerowitz Stories, 2017), aqui ele prova ser um ator de muita fibra e capaz de segurar um filme inteiro nas costas sem decepcionar. Se não fosse a boa presença e o calculado timing em suas interações de altos e baixos, talvez Joias Brutas não tivesse nem metade de seu impacto e sucesso. Inclusive, parte do interesse de toda a produção está em vê-lo sair de sua zona de conforto encarnando um papel totalmente atípico em sua carreira.

Nos tempos em que a ação nos filmes virou mero detalhe e que recursos periféricos ganham cada vez maior espaço no resultado final, é um alívio ver no cinema americano o frescor de um trabalho todo ancorado no movimento, que resgata muito da importância da cinética em uma narrativa. Não à toa, é quando a ação para e a poeira abaixa que tudo perde seu interesse e que os irmãos Safdies decidem que está na hora de encerrar Joias Brutas.

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