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Críticas

Cineplayers

Uma obra-prima de Clint Eastwood que explora de maneira humana todas as dores dos personagens durante toda sua duração.

9,0

É um pequeno grande filme. E belo, emocionante, real. Difícil até selecionar os adjetivos para qualificá-lo, já que o prazer de se assistir a este novo filme de Clint Eastwood é tão grande e tão intenso. O que mais impressiona é como Clint amadureceu, tornou-se um diretor humano e sincero, sem resquícios do durão que tanto o fez famoso. Dirty Harry definitivamente é passado.

Clint realizou aqui sua obra-prima, inegavelmente. E olha que estamos falando do sujeito que fez Os Imperdoáveis, o faroeste mais importante das últimas décadas. Mas Menina de Ouro é mais forte, acadêmico e universal. Apenas um ano depois do lançamento do superestimado Sobre Meninos e Lobos, tempo curtíssimo para se desenvolver um projeto, o filme já estava sendo apresentado nos cinemas ianques e habilitado a concorrer ao Oscar desse ano (inclusive parece que a pós-produção do filme foi apressada exatamente para isso). E não é que Clint foi honrado novamente com as estatuetas de melhor filme e melhor diretor? Mais merecido, impossível.

Ancorado por um roteiro maravilhoso de Paul Haggis (que em breve estará debutando como diretor com Crash, desde já um dos mais aguardados filmes do ano), Clint revela-se extremamente sutil e firme ao contar a história fictícia de Maggie (Hilary Swank), uma jovem que busca no boxe uma saída para sua vida vazia e sem expectativas. Maggie busca no amargurado treinador Frankie Dunn (o próprio Eastwood, novamente revezando-se à frente e atrás das câmeras) a solução para alcançar o seu objetivo. Só que Dunn é, de certa forma, preconceituoso e diz não treinar mulheres - inclusive chega a dizer para a moça que ela é velha demais para o esporte, já que passou dos trinta anos de idade. Mas Maggie demonstra-se determinada o suficiente e passa a treinar na academia de Dunn, com a simpatia do zelador do lugar, Eddie Dupris (Morgan Freeman), um ex-lutador que agora vive na simplicidade e que é cego de um olho, decorrência de uma luta do passado. A obstinação da garota a aproximará de Dunn, e logo a moça torna-se uma promissora boxeadora, mas uma fatalidade mudará a vida de ambos para sempre.

Não pense que Menina de Ouro é mais uma obra derivativa de Rocky - Um Lutador, como tantas outras que existem por aí. Atente que este não é um filme sobre boxe, e sim uma bela e triste história de pessoas comuns em busca de uma razão para viver. O boxe é apenas o catalisador da vida destas três pessoas. E o que mais impressiona é como o roteiro de Haggis conseguiu dar uma textura, um pano de fundo aos seus personagens - sem nunca recorrer a flashbacks! O passado de seus três personagens principais é tão importante para a história que, a certo ponto, ficamos nos perguntando como foi possível realizar um trabalho tão dinâmico e coeso, tanto por parte do roteirista como do diretor. Outra proeza do roteiro é se deslocar de um ato para outro de forma tão correta e simples, já que essa passagem era o momento chave do filme e que corria o risco de ser bastante traumática no ritmo do filme.

Quanto aos atores, eles são a alma do filme - a história é centrada basicamente em apenas três personagens. Hilary Swank prova ser tão obstinada quanto sua personagem, encarnando com vigor uma boxeadora. Ela, que estava com sua carreira ladeira abaixo, novamente recebeu um papel à altura do seu talento, recebendo merecidamente seu segundo Oscar. Clint, que também foi indicado a melhor ator, esquece definitivamente o rótulo de galã de meia-idade e encarna seu personagem com uma humanidade pouco antes vista em sua filmografia. E Morgan Freeman, um dos maiores atores de todos os tempos - repito: um dos maiores atores de todos os tempos - engrandece todas as cenas que participa com uma discrição que só o tempo e o talento são capazes de permitir. Não é um papel de grande exigência dramática, mas de grande percepção. Freeman recebeu tardiamente seu primeiro Oscar pelo papel, mas com total merecimento.

Se há apenas uma coisa que incomoda no filme todo é a inclusão de um personagem tragicômico que serve de alívio em um filme lento e pesado, mas que poderia muito bem ter sido suprido - o que com certeza diminuiria um pouco a metragem do filme. Mas é apenas uma pequena falha de um filme tão rico. Só para completar, um desabafo: é inadmissível como parte da imprensa teve a coragem de revelar o desenvolvimento do filme, estragando para muitos espectadores o prazer de descobrir o quanto Menina de Ouro é surpreendente. Uma falha grave que deveria ser punida e jamais repetida.

Comentários (1)

Gustavo Santos de Araújo | sábado, 03 de Março de 2012 - 12:17

Quando a emoção e o silêncio se confluem e permitem as sinceras lágrimas....!O melhor drama da última década.

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