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Irlandês, O

(Irishman, The, 2019)
8,8
Média
99 votos
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Críticas

Cineplayers

Reminiscências de um gênero

10,0

O filme de máfia ou gângster é um dos gêneros mais propriamente estadunidenses do cinema. São filmes, geralmente, que refletem sobre alguns momentos da história urbana do país – e sobre como uma conjuntura econômica e política pode influenciar nos limites morais dos que habitam as suas cidades. É um gênero que fala de uma violência muito incorporada na desigualdade da grande cidade moderna nos EUA e das masculinidades que essa violência constrói.

O Irlandês (The Irishman, 2019), novo filme de Martin Scorsese, parece estar às voltas de uma despedida para esse gênero. Lógico, não é possível realmente realizar uma conclusão desse tipo (certamente, continuaremos a ver filmes de gângster, vários deles), mas O Irlandês se coloca muito prontamente diante da possibilidade desse fim: a de que os mafiosos, quando têm sorte, envelhecem e de que o mundo que eles criaram para eles mesmos (um mundo em que são poderosos chefões) já não será um mundo a que eles pertencem.

O principal ponto de O Irlandês me parece ser essa autorreflexão sobre o gênero (os seus temas, a sua estética, os seus personagens e os seus valores). Isso já parte do modo como a história nos é apresentada. Frank Sheeran (Robert De Niro), velho, sozinho no que aparenta ser um asilo, narra a trama da sua relação com a máfia da Filadélfia e o sindicato de caminhoneiros, personificados pelas lideranças de Russell Bufalino (Joe Pesci) e Jimmy Hoffa (Al Pacino), respectivamente. Esse gesto de narrar a própria história, que é do personagem, parece repetir a própria lógica autoral do filme, no que Scorsese assume a posição aqui de filmar a própria obra, refletindo sobre trabalhos tão diversos quanto Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990), Cassino (Casino, 1995) e Os Infiltrados (The Departed, 2006).

O filme não copia referências da filmografia do diretor, mas lança um olhar atento para o arquivo desse gênero (que o cinema de Scorsese ajudou a perpetuar), colocando em cena algumas questões latentes desse arquivo que, acredito, nunca foram propriamente pronunciadas em sua obra. A primeira delas, e mais notável, é a questão relativa ao envelhecimento e morte dos personagens, uma dúvida que, posta em cena, rompe com o dilema entre a redenção e a punição que justifica tantos filmes do gênero.

Para além da punição e redenção, os personagens de O Irlandês envelhecem. E, para que possamos ter uma dimensão mais visível do que isso significa, recorre-se a efeitos especiais para rejuvenescer os atores principais, Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino. O que me parece mais interessante, no entanto, não é a recuperação de uma outra imagem dos atores (uma imagem muito cara a esse arquivo do gênero, como não é por acaso que essa técnica é aplicada especificamente a esses atores, que são parte de um cânone do filme de máfia estadunidense), mas como a juventude desses personagens é encenada por esses atores mais velhos. Isso reitera uma qualidade de reminiscência do filme – uma reminiscência desse personagem que nos conta sua história tanto quanto uma reminiscência do filme de gângster que é articulada por Scorsese.

Evidentemente, Scorsese não articula isso sozinho. Há um exercício de muita precisão e cuidado no modo como essa história é contada, em cada detalhe que é apresentado e em cada composição visual que reaparece durante o filme. A montagem de Thelma Schoonmaker e o roteiro de Steven Zaillian dão conta de tecer, junto com Scorsese, essa intriga de 3 horas e 20 minutos, justificando cada pequeno momento dessa longa duração. É nessa teia fílmica que se dá a atividade de recordação do personagem e do filme, é nela que se constrói esse mundo masculino (em que as mulheres estão não ausentes, mas à distância), que, contemplado como lembrança, revela um custo antes não previsto. Agora sozinho, o mundo tão repleto de personagens de Frank Sheeran foi reduzido ao seu quarto no asilo e se sustenta apenas na continuidade da máquina que conta a sua história – podendo desaparecer meramente na transição de um frame para o próximo.

Comentários (13)

CitizenKadu | domingo, 01 de Dezembro de 2019 - 05:49

Talvez por causa desse recurso digital, Scorsese põe a câmera concentrada no frame dos olhares. E não tem o que falar de mal de Pesci. A medida que o filme vai passando e o personagem dele vai ficando cada vez mais presente, sua atuação vai gradualmente e minimalisticamente explodindo na tela. E eu não estou no hype, pelo contrário, eu digeri bem o filme.

CitizenKadu | domingo, 01 de Dezembro de 2019 - 08:28

Me lembrei de uma cena genial. Não há muito show-off aqui ( mesmo que um show-off do Scorsese é sempre agradável, os malabarismos técnicos,etc..), mas planos-sequências sem significado dentro da narrativa são apenas planos sem corte.Existem episódios de séries televisivas com planos-sequências bem dirigidos, não precisa ser mestre,mas pra botar significado narrativo como em "Touch of Evil" não é qualquer um. No asilo a câmera segue a enfermeira que estava conversando com o doente e velho Sheeran até o corredor, depois a câmera dá meia volta e entra no mesmo quarto de novo(até aí tu tá pensando: "Por quê isso?!"), e quando a câmera entra no quarto a gente vê que o tempo passou, e que este plano-sequência foi para demonstrar que Sheeran desde a conversa com aquela enfermeira não saiu do mesmo lugar e foi vencido pelo tempo e pela incapacidade. Uma consciência de técnica com propósito narrativo de uma sapiência incrível.

Carlos Eduardo | domingo, 01 de Dezembro de 2019 - 10:38

Scorsese é mestre neste tipo de plano. Muita gente quando aprende o que é planos sequência fica deslumbrado com cada filme que usa o recurso, mas muitas vezes é usado apenas como uma demonstração de técnica sem realmente influir na narrativa. No próprio Oscar o prêmio de melhor diretor em anos recentes vem parecendo o prêmio de melhor plano-sequência: Gravidade, O Regresso, Roma, A Forma da Água, Birdman... Até concordo com os prêmios pro Cuarón, mas em Birdman tem certos momentos que achei o uso dos planos sem corte bem over e sem propósito.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 04 de Dezembro de 2019 - 00:35

O Scorsese consegue impor bem os significados que enseja nos planos-sequências. Haja vista a genialidade dele em um plano no Gangues de Nova York que ele faz um tour com câmera mostrando desde a chegada dos irlandeses ao porto passando pela convocação à guerra, e se findando na chegada dos caixões vindos do conflito. Foda. Sempre lembro desse.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 04 de Dezembro de 2019 - 00:38

Quanto aos planos do Birdman aquilo acaba por funcionar como a lógica corrida do teatro, onde sempre se corre pelos bastidores, e é este o significado daquela câmera. Sempre em movimento, ativa, tal qual um teatro pulsante.

Carlos Eduardo | quarta-feira, 04 de Dezembro de 2019 - 08:24

Eu gosto muito de Birdman mas ainda acho que o filme INTEIRO em plano-sequência, principalmente o terceiro ato, não se justifica. Tivesse tio Alejandro pesado um pouco menos a mão neste sentido, acredito que Birdman poderia (com o perdão do trocadilho) alçar voos mais altos. Mas ratifico que gosto muito do filme, apenas citei-o como contraste a O Irlandês, que tem na minha opinião usa a técnica de modo mais preciso. Até mesmo o trabalho de tio Alejandro em The Revenant acho bem melhor que em Birdman.

Carlos Eduardo | quarta-feira, 04 de Dezembro de 2019 - 08:25

E é muito bom ver alguém dando o devido valor a Gangues, que antes de The Irishman era o melhor trabalho de Scorsese desde Goodfellas. Épico visceral.

CitizenKadu | sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019 - 21:21

O Irlândes tem mais de 3 horas mas é como um post que chama a atenção por uma denúncia grave, por exemplo; ele pode fica mais de 3 horas passando informações e depois que tu apagou ( o filme), a mensagem passada acaba mais importante que a finalização. No caso, a traição de um amigo em nome da gang; da "união".

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